Tesouros – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 17 Abril 2013

 

2013 – 04 – 17 Abril 2013 – Tesouros – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Tesouros

H

á uma expressão que se confunde com uma forma atual de agir perante as curiosidades ou interrogações do cotidiano: – Procura no Google! – quando o tema ou assunto envolve algo da Medicina, acrescenta-se “doutor” ao Google. A vida caminha ou o genérico “a fila anda” no mais amplo e literal sentido e ai de quem ousar parar, estacionar ou fincar o pé, pois será arrastado diante do inevitável de almeida. Há esforços para que os livros e enciclopédias sejam disponibilizados nas telas informatizadas. Logo a gigantesca Biblioteca do Vaticano e do Congresso americano estarão disponíveis ao click ou ao piscar dos olhos cibernéticos. Mas o livro ainda luta bravamente por seu espaço e pelos corações e mentes de muitos empedernidos.

Cr & Ag

Na casa da minha irmã Shirley e do cunhado Geraldo havia um portal mágico. Era uma estante em madeira marfim com portas de vidro e tesouros alinhados em suas prateleiras. Eram livros e enciclopédias. Sentava-me ao tapete no piso e devorava insaciavelmente páginas e mais páginas. Uma dessas minas chamava-se o Tesouro da Juventude e seus instigantes temas em que muitos raciocínios simples – “Se houvesse um grande muro, uma grande barreira cercando o sistema solar ou o universo, essa barreira ou esse muro não poderia continuar-se para sempre…”  – logo o universso é infinito. Fazia o ávido guri projetar-se numa jornada em que a imaginação é o único limite. A Enciclopédia Prática Jackson, a Enciclopédia Delta Larousse e seu imenso dicionário Caldas Aulete, que decifrava os vocábulos obscuros ou desconhecidos. Aplicava-me uma regra ao buscar um termo ou palavra: vou ler três acima e três abaixo, logo seriam dez e ainda a busca pela casualidade em abrir numa página aleatoriamente e colocar o dedo… e bingo! Outro horizonte desvendado.

Cr & Ag

E os gibis? Mandrake, Tarzan, Flash Gordon, Superman, Batman, os do Disney, Sobrinhos do Capitão, Brucutu… Deus do céu! Nas sessões da matiné de domingo no Cine Radar, ali nas franjas da caixa d´água, trocávamos com outros guris. Havia o Zé Dubin, mais velho e depois o conhecido médico, que comprava e revendia até em Porto Alegre. Trazia o DNA de negociante. Raras TVs e poucos possuíam essa novidade de som e imagem, mas nada substituía o livro e o gibi. Viamão nunca teve uma biblioteca permanente nem aquinhoada de bons livros. Seria uma maldição? A gurizada que gostava de ler ia conseguindo emprestado.

Cr & Ag

Nossa casa na Cidreira, na inóspita Viola de muito vento Nordestão e areia sem fim, tinham raros e distantes vizinhos. A casa ao lado e mais próxima era do seu Carlito Motta, ferreiro aposentado (hoje seria metalúrgico) extremamente hábil e um faz-tudo-bem-feito. Era um casal sem filhos. Dona Tereza era sua esposa. Lia muito e falava com argumentos sobre qualquer assunto. Mãos gigantescas (de ferreiro habituado às forjas e à marreta), corpulento, boca com sequela de paralisia facial, seu Carlito colecionava Mecânica Popular e Seleções do Reader´s Digest entre muitos outros livros e revistas. E alegrava-se em emprestar-me seu tesouro ao que eu devorava rapidamente e devolvia intacto para ser novamente presentado com mais volumes.

Cr & Ag

Meus pais pouco puderam estudar, pois ainda na adolescência tiveram que enfrentar trabalho duro pela sobrevivência, mas tinham essa luz que lhes apontava para que os filhos estudassem e lessem muito: – O único bem que nenhum ladrão vai tirar de ti é o estudo! – dizia-me minha mãe Dora incitando-me sempre para ler e estudar enquanto varava noites com as pilhas de costuras e a necessidade de aprontá-las e entregá-las para as clientes. Tesouros da vida e de muito amor!

Antonio Guzman Capel

Quadro/pintura de Antonio Guzman

cascade-Fanny Brennan

Imagem de Fany Brennan

O caminho de muitos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 10 Abril 2013

 

2013 – 04 – 10 Abril 2013 – O caminho de muitos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

O caminho de muitos…

Muitos passam a vida acumulando coisas que pouco usaram ou que jamais usarão. Talvez como aquele casaco ou aquele sapato, ou um eletrodoméstico ou outra coisa qualquer. Amontamos coisas úteis ou inúteis. Temos a dificuldade em nos desfazermos de objetos como temos a dificuldade em nos livrarmos de dores ou sentimentos encravados, enraizados em nosso ser. A pessoa busca e anseia pelo perdão do seu padre ou pastor, do guia religioso ou espiritual para assim acalmar sua consciência ou aplacar as dores da alma. No entanto, talvez perdoar aos outros seja mais fácil do que se perdoar. Liberar-se de coisas materiais ou de coisas do nosso íntimo pode ser tarefa dura, dolorosa ou até impossível neste aqui e agora.

Cr & Ag

Você tem alguma casa em sítio? Ou casa de praia? Como você equipou esta sua outra residência? Muitos usam aquilo que consideram descartável, velho ou inútil no lar principal para povoarem os espaços da segunda casa. Ou do local de veraneio. Ou local de prazer. Veraneio, lazer associa-se com prazer, felicidade e alegria. O lar ou a casa original é o local de trabalho e de purgação, das batalhas do dia a dia e dos enfrentamentos com a dura realidade da vida, do cotidiano e dos relacionamentos. A casa da praia, por exemplo, é o local do prazer e das merecidas e ansiadas férias. O local onde despimos a maior parte das nossas roupas e das nossas atribulações e nos permitimos extravagâncias se comparados com a atividade dita normal ou habitual.

Cr & Ag

Mas se o local de veraneio e de lazer oferece novas emoções ou reavivamento das antigas, por que ocupar e trazer para aqui o que está “velho” ou inútil? Contradição? Não deveríamos equipar esse lugar com novos e belos móveis dando aquele sofá decrépito para algum necessitado? – Economia! – pensaste. Conhece aquela lenda urbana da esposa oficial que descobriu o “ninho de amor” montado pelo falcão peregrino? No seu local alternativo de sexo e alegrias – tudo novo e do melhor possível. Por que também não usar o descartável como aquilo enviado para a casa de veraneio?

Cr & Ag

Eis que um dia os sobreviventes se aposentarão. A maioria será esgoelada pelo INSS. Muitos vão atrás do sonho de morar no sítio e terem suas próprias e rechonchudas galinhas, sua horta, suas laranjeiras e outras maravilhas pacientemente catalogadas na agenda do aposentado. Outros sonham em morar no litoral. Praia! Que beleza sentir a brisa do mar nos cabelos, o odor salino, caminhar com os pés livres pelas areias com as ondas a lhe lamberem os dedos e chutando as tatuíras. Os novos dias serão longos ou acintosamente curtos para tantos projetos e sentimentos. Preocupações? A aposentadoria insuficiente do INSS e a insegurança de ter um marginal com o cano do tresoitão atolado em sua garganta ou ser ameaçado pelos “menores em situação de risco”? Novamente os sobreviventes dessas intempéries sociais do “capitalismo selvagem” enfrentarão a realidade que cultivaram e plantaram.

Cr & Ag

Na “melhor idade” (para quem?) estarão inapelavelmente velhos. Fatalmente velhos. O politicamente correto será uma mera e dolorosa quimera. Estarão cercados daquilo que descartaram como inúteis em seus lares e casas e agora sentir-se-ão inúteis para uma sociedade quem nem os governos socialistas respeitam como idosos e aposentados do INSS, apesar da propaganda em contrário. Analogia cruel e real! Escape-se dela. Usem o melhor na alegria e na felicidade. Roupa de combate e ração de campanha dos guerreiros ou militares são para a guerra, sob o açoite da artilharia ou da infantaria inimiga. Concordam?

Jim Warren4