O Samba do Motoqueiro Doido – Edson Olimpio Oliveira – MEMÓRIA–Rir ainda é um bom remédio.

 

A Moto na História ou o

Samba do Motoqueiro Doido!

 

 

A madrugada já nos espreitava. Mas o companheiro continuava com o caneco de cerveja sendo brandido como bandeira desfraldada na mão direita. A lua manhosa, tendo nuvens a adorná-la como cabeleira prateada, como que insistia em continuar roçando-se nas marolas do Rio da Plata.

 

—- E saibam vocês que a Era da Pedra Lascada tem esse nome porque não havia pneu que agüentasse naquela época. Os caras além de enfrentar os dinossauros, que seriam como as carretas e jamantas hoje, também já insistiam que trail ou trilha é diversão. Vê se pode, meu? – argumentava o companheiro.

 

Estufou o peito aspirando e nevando de branco a ponta do nariz com a espuma:

E a moto também está nas Sagradas Escrituras. Deus já tinha feito o Paraíso, o Adão e a Eva. E para complicar tinha a Serpente sempre botando minhoca. A dupla só queria se distrair comendo maçãs. Então Deus fez a moto. Fez atrasado, pois quando chegou o rolo já estava feito e ainda acabou com a briga do Caim e do Abel sobre quem pilotaria nos finais de semana. Depois teve a transa da Motocicleta de Noé. Era uma moto anfíbia gigantesca que salvou do afogamento uma pá de bonecos e uns bichos e bichas. Ai começou a bichice na história. – reuniam-se curiosos em torno do ‘orador’ que continuava:

 

Dizem que o Maluf e a ex-Suplicy até estão pensando numa semelhante para as inundações em Sampa. Ainda nas Escrituras tem o caso de um tal de Moisés que saiu do Egito e foi para a Palestina. Daí deu origem ao Rally dos Faraós, Paris-Dakar e outros. E por sinal despertou o ciúme na região daí vindo a briga entre judeus e palestinos até hoje. A moto foi muito importante na Grécia antiga, tinham uns caras que moravam num morro chamado Olimpo, aqui seriam favelados, que queriam motocicletas só para eles e aí deu aquela briga da Motocicleta de Tróia que teve depois um parente no Brasil, outro Ulisses. Mermão, teve até um rei, tal de Nabucodonosor ou Trabucodonosor que fez seus jardins suspensos na Babilônia para ter estacionamento para sua coleção de motocicletas protegidas do sol infernal.

 

— O cara baixou o espírito do velho Rui Barbosinha em duas rodas – exclamou um companheiro enquanto procurava algo nos bolsos do colete repleto de adereços.

 

— As provas de supercross começaram em Roma no velho Coliseu, cara. Quem perdesse era devorado pelos leões. Parecido com o esquema do leão do imposto de renda por aqui. E vocês sabem como o Brasil foi “inventado”? Os espanhóis e os portugas queriam descobrir um caminho para trazer as motos orientais para o ocidente e a desculpa era de namorar as índias. Então numa dessas viagens os carinhas chegaram à Bahia, onde aportaram com o consentimento do ACM e com o trato de colocarem uma fitinha do Senhor do Bom Fim no punho da moto. Ainda tem o caso do Dom Pedro que soltou o berro no riacho Ipiranga empinando uma Ténéré e nos liberando de Portugal que se adonava de nossas motos e de nossas mulatas. E por falar em mulata, a tal de lei Áurea foi a liberação total da motocicleta para todas as raças. Legal, heim? – empolgava-se o nosso companheiro.

 

E com os lábios revestidos da deliciosa espuma da cerveja portenha, o companheiro com os olhos em transe continuava:

 

 — O tal de Hitler se ferrou na Rússia porque insistiu em usar moto street na neve. Além disso, a gasolina congelava nos tanques. E Pearl Harbor? A eterna briga de Harley e Indian contra a Suzuki, Honda, Kawasaki e Yamaha. Que pauleira, meu! E até novos países surgiram por causa das motos, mermão. O veterano Quintino do Rio das Ostras enriqueceu exportando esses bichos para a Ostrália. E a moto no futebol? O Garrincha tinha as pernas tortas de tanto andar de moto, meu. – passou o antebraço na boca. O suor brotava de seu pescoço parecendo drenar das veias dilatadas. Pensei que ia parar. Enganei-me. Continuou:

 

E o Pelé criou o gol de motocicleta, consagrou-se e até hoje continua botando as bolas para dentro. Dizem que é o maior consumidor do remédio que propagandeia. Acreditem se quiserem. Sabem o Denílson do Penta? Toda aquela habilidade de drible foi conseguida pilotando como motoboy em São Paulo.  Mas é a vida, meu. Cerveja é moto engarrafada. E se o “companheiro” Lula aproveitasse a barba, fizesse algumas tatuagens e pilotasse moto já seria presidente, ainda mais com o apoio dos mais de 10 milhões de bauzeiros, motoqueiros e motociclistas e mais cinco votos que cada um representa. Principalmente se contasse com a bênção do grande Pateta dos Abutres. E ainda fazendo a reforma motoagrária! Todos deveriam ter acesso à moto e tem gente com moto demais e outros sem nada. Os políticos deveriam criar um Programa de Apoio a Moto, financiamento em dez anos, sem juros e sem entrada, assim a fundo perdido tipo negócio de governo com bancos. Aí periga aparecer algum PC Farias ou Valdemar Dinis ou mensalão.  Enquanto isso alguns curtem a motovirtual (alô Adams) que foi pra isso que inventaram a internet, pô meu!

 

Apesar da sonolência estar “capotando” a sua platéia agora restrita ao garçom e dois outros motociclistas, o homem continuava seu discurso, ou melhor, moto-discurso:

 

Mermão, moto é a mulher que deu certo. Com todas as vantagens, meu. Só fala e berra quando a gente aperta o botão e dá partida. E sem sogra, nem cunhado. E dá mais uma aí, meu, vamos tomar a saideira que amanhã (hoje) temos um bom encontro para curtir e depois afinar nossas máquinas na estrada. – arrematou com os olhos avermelhados e vidrados.

 

E, segundo outro companheiro, existem dois tipos de seres humanos: os que amam motocicleta e os que ainda não sabem que amam. Em tempo, o motociclista autor do discurso acima ainda menciona que o garçom que atentamente lhe escutava, também é cantor de tangos e bailarino no Caminito e que quer a sua “autorização para fazer desse samba um gardelaço, isto é, um tango a la Gardel”. Pode? É difícil controlar o homem!

 

 

 

 

 

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Um verão extemporâneo – o Vento Norte – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 05 Agosto 2014

 

2014 – 08 – 05 Agosto – Um verão extemporâneo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

 

Um verão extemporâneo – o Vento Norte

 

Muitos acreditavam ser o vento Norte um portador de moléstias, desastres e um mensageiro das desgraças. As pessoas desciam pela rua Dois de Novembro com flores nas mãos, um amargo de boca e sentimentos dolorosos realçados pela memória ou por esse hálito  quente como vindo das bocarras do Inferno mirando os sólidos portões de ferro do Cemitério central. Outros gastavam os joelhos e calejavam as pontas dos dedos serrilhando as contas do rosário. Preces e lágrimas. Antes e depois. Os cães não acompanhavam seus donos e amigos e abandonavam-se numa sombra qualquer numa letargia de dar dó. A vida era diferente. As pessoas eram diferentes. Amava-se diferentemente. Amava-se por toda a vida. Muitos se amavam eternamente.

 

Cr & Ag

 

Hoje, domingo, amanheceu com um sol ardido. Ardido e dolorido, parcialmente pelo buraco na camada de ozônio, mas principalmente pelo vento Norte. A brisa das primeiras horas matutinas ganhou uma força especial, talvez açulada pelos demônios da dor e dos sofrimentos de alma e corpo, e um vento em rajadas. Zumbia em menosprezo por todos nós nas cumeeiras do prédio. Vento zombeteiro como só ele. Alguns escutam as vozes de entes amigos que partiram dessa para outra qualquer na sua sibilância. Outros se entreolham como se suas consciências falassem e seus pecados borbulhassem na alma que ousam sempre desdenhar.

 

Cr & Ag

 

Há quem sinta o odor de enxofre e assim espalham sal grosso no exterior de suas portas e janelas e trancam-se na casa, agora refúgio. Uma vela acesa para Nossa Senhora ou para algum santo ou santa venerados. A humanidade aproxima-se do Criador sempre que o temor é maior que seu domínio ou suas forças para enfrentar a adversidade. Sem telefones ou internet, sem a fragilidade fugaz das redes ditas sociais, a criatura sabe que depende de si e dos seus num curto perímetro.

 

Cr & Ag

 

Não era dia de lavar as roupas guardadas ou colocar a roupa de cama no alambrado ou na janela como é a rotina da dona de casa rural e de antanho. Visitas? Somente em extrema e derradeira necessidade, como enfermidade ou velório. Havia quem postergasse o sexo, no entanto, outros executavam a talvez derradeira. A última será… a última! Credo em cruz ou cruz credo. Agosto, nome do mês dado pelo imperador romano César Augusto em sua homenagem, também é o mês do “cachorro louco”. A natureza prega suas peças até nos cães aumentando incidência do cio nas cadelas e tornando os machos desvairados pelos feromônios (“odor de estrógeno”), como a maioria dos machos e nas lobas da Globo, por exemplo.

 Amor perdido

Cr & Ag

 

Melhor ou pior se comparado com nossos dias? Tudo ao seu tempo, necessidade e evolução. O vento Norte está aí antes de nós e certamente ficará varrendo as cinzas da humanidade e espetacularmente a soberba, a ganância, a fome de poder, a necessidade de séquito e de adoradores, a cobiça material e moral e tantas irrelevâncias ardorosamente defendidas com a vida dos outros.