Na responsabilidade de educar – Amor e Dor – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 30 Setembro 2014

2014 – 09 – 30 Setembro – Na responsabilidade de educar – Amor e Dor! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

Na responsabilidade de educar – Amor e Dor!

 

A

precio muito conversar com pessoas anônimas, com gente do povo, sem os cuidados de estarem conversando com um médico e menos ser uma conversa dirigida como consulta. Assim tenho feito por toda a existência. Estando em outras cidades, com as pessoas do ponto do ônibus ou do metrô e com os taxistas e outros motoristas profissionais. Esses são criaturas excepcionais para termos uma visão do local, da região e de sua gente. Já cozinhamos vários temas desses personagens em outras crônicas. Outro dia, em deslocamento de hotel para aeroporto com um motorista já idoso, falávamos um pouco de tudo – futebol, política, prédios pichados, congestionamentos de trânsito – quando ele veio com o tema da educação dos filhos e alusão à “lei da palmada”. Contou que foi caminhoneiro e viajou por todo o Brasil. Tiveram dois filhos, ele e a esposa. Enquanto falava, olhava-me pelo espelho retrovisor interno como se não bastassem as minhas respostas e considerações e precisa-se ver meu rosto. Isso também me oferecia uma visão, um panorama e detalhes da vida repartida naquele breve caminho.

 

Cr & Ag

 

Contava-me que um dos filhos fora tranquilo e maduro para sua idade, enquanto o outro forçava caminhos sombrios, com maus e péssimos amigos e companhias. Horas de conversas, orientações, exemplos da família e de outras pessoas e fazia por estender as paradas em casa para que o rapaz mudasse de trajetória. Nada parecia funcionar. Um dos amigos preferenciais do jovem era viciado em drogas e sabidamente ladrão. No retorno de uma das suas viagens, encostou o caminhão com um mau pressentimento e uma angústia no peito. Logo perguntou pelos filhos. Um estava em casa lendo ou estudando e o outro estava sumido. Saiu em desespero a procurá-lo. Encontrou-o com o mau amigo e haviam roubado dois cavalos.

 

Cr & Ag

 

Fez devolver os cavalos e levou-o para casa. Ali chegando, retirou a cinta da cintura e passou a sová-lo. Contando a surra, vi seus olhos marejarem de lágrimas e a face contorcida de dor. – Ele gritava que iria embora de casa. Disse-lhe que poderia ir, mas que não voltasse nunca mais, pois se não quisesse estudar e trabalhar como o irmão e toda a família, que só lhe servia conviver com viciados e ladrões, que ele não impedia. O rapaz foi para seu quarto e ele disse trancar-se no banheiro e chorar como nunca na sua vida. O tempo que se seguiu foi de muito sofrimento para todos. Num pequeno complemento, disse-lhe que dói muito mais em nós do que nos filhos qualquer puxão de orelha, mais ainda uma surra.

 

Cr & Ag

 

O rapaz continuou em casa. Começou a estudar com mais dedicação e pediu um trabalho. Ele conseguiu um serviço na empresa de um amigo com o detalhe de que ele pagava o salário, mas que o jovem nunca soubesse. Que achasse ser como qualquer dos outros empregados apesar de ser menor de idade. Conta com alegria que gostaria que os filhos seguissem outras profissões, mas que os dois eram caminhoneiros como ele foi. São homens de respeito, trabalhadores e bem quistos, bons esposos e melhores pais. Disse que o filho antes problemático conta para todos que a sova que o pai lhe deu lhe o trouxe à razão e tirou-o de uma vida que já estaria morto na droga e no crime se nela continuasse. Demonstrando para todos o reconhecimento ao pai. Fez uma analogia final: – certas porcas rodam com facilidade no parafuso, mas outras têm que lubrificar muito e usar várias ferramentas para dar o aperto certo.

Vivemos uma era muito ruim para nosso povo e nossa pátria. Os exemplos são escassos nos líderes e nas autoridades. A impunidade grassa virulentamente. A lei é de levar vantagem e não ter limites ou fronteiras. A mentira é institucional. Ser honesto é um “defeito” quando tantos são criminosos de todos os naipes e cores.

Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 23 Setembro 2014

2014 – 09 – 23 SETEMBRO – Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Orgulho e vergonha

 

Q

uase tudo é uma questão de medida. O remédio tem a dose curativa e alguns até a dose fatal. Há também aquela dose que não fede nem cheira, sem qualquer efeito real. Assim são com nossas emoções e com nossos sentimentos. Devemos buscar o equilíbrio seja na balança da deusa Themis, ou nos sentimentos, ou na vida em qualquer cenário. O orgulho é visto com uma aureola pecaminosa, mas nem sempre deve ser assim. O orgulho é uma das manifestações mais humanas. Real e estimulante. Sentimos orgulho quando nosso time vence ou sagra-se campeão. Orgulhamo-nos de nossas origens, do pampa gaúcho e das nossas tradições. Orgulho aflora nas vitórias da pessoa, da família ou da pátria. O orgulho se verte em lágrimas e na voz embargada quando um Ayrton Senna ou um Pelé é vencedor e ali sentimos como sendo cada um de nós. O orgulho anabolizado, excessivo, exacerbado transmuta-se naquilo odiosamente entendido como soberba. A soberba embrutece o coração e ensombrece a alma de seu portador.

 

Cr & Ag

 

O orgulho é primário. A vergonha é secundária. Tanto no vocabulário a letra “o” antecede a letra “v” como na vida. Alguém acometido de vergonha dificilmente sentirá um orgulho pleno e sem culpa. A vergonha tende a espreitar os caminhos, evita exteriorizar-se à luz do dia, fica no subterrâneo existencial da alma. O torcedor dessa “pátria de chuteiras” evita sair com a camiseta do seu time após uma goleada ou outro resultado constrangedor. Vários até sonegam serem torcedores do time tal. Desviam do assunto futebol e embarcam em qualquer outra canoa menos furada que a sua.

 

Cr & Ag

 

 Proponho um singelo exercício – você tem uma pessoa muito íntima e descobre que ela é criminosa, igual aos outros criminosos. Continuará sentindo orgulho daquela criatura? Ou vergonha? Mesmo naqueles casos que a força do “amor” empurre-o para incontáveis justificativas para explicar, referendar ou atenuar seus crimes, qual seria a sua atitude? Agora se transfira para a política brasileira. Um brilhante advogado observou que certas siglas partidárias não mais ostentam no peito e empunham bandeiras com a graça e a liberdade orgulhosa de outros tempos. É uma realidade. Até o presente, políticos consagrados pelo voto e por seguidores de suas promessas não tem a mesma exposição. Teriam vergonha de suas legendas partidárias? Ou o orgulho em alto e notável sonoridade ao dizer-se “sou de tal partido”. Onde estão? “Tão tudo mocozado por aí!” – entrega um conhecido mecânico.

 

Cr & Ag

 

 Getúlio Vargas, Juscelino, Jango, Brizola, os presidentes da ditadura militar e muitos outros trazem a marca da simpatia ou da antipatia por seu governo ou ideologia, nunca pela honestidade e do maremoto de escândalos e de corrupção. Tudo que fizeram, fazem e farão em prol do socialismo/comunismo no Brasil e nada do gênero descoberto e provado com os presidentes da ditadura. Realidade. Governos que privilegiam a desonestidade, que premiam a criminalidade e castigam o brasileiro e a brasileira que entregaram vidas de trabalho e contribuições para a previdência oficial. Esses brasileiros têm seus desmilinguidos proventos de aposentadoria diminuir ano a ano além de ser extorquido pelo “fator previdenciário” no ato funesto de aposentar-se. Para muitos é impraticável retirar a cangalha do pescoço. Vários pela ideologia, outros pelos cargos de confiança ou aboletados pelo poder. Infelizmente nem todos sentem o odor fétido do seu mau hálito, do chulé ou da bunda suja apesar de transformarem a vida dos outros a sua volta num inferno. Quem negocia e pactua com coisa-ruim cheira a enxofre. Há que acredite que pactuar com o diabo ou aceitar suas regras é “normal, todos fazem, ou vale pela governabilidade”.

Entre San Juan e Mendoza – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 16 Setembro 2014

2014 – 09 – 16 SETEMBRO – “Entre San Juan e Mendoza” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Entre San Juan e Mendoza

 

S

into-me um privilegiado por muitas coisas, mas especialmente por desfrutar de tempo para conviver com meus netos. São três. Dois residem em Roraima. E o Lucas está aqui residindo no apartamento ao lado. Estamos na transição do encantamento pela tecnologia que mistura deslumbramento pelas suas infinitas possibilidades como pelo sufocamento da imersão em bytes e redes sociais. Assim as pessoas pouco conversam dentro e fora dos lares. Até as necessidades profissionais sucedem-se em reuniões virtuais. Grandes telas iluminadas pelos cômodos das casas e nas paredes de restaurantes, bares ou qualquer local de convivência captam e mesmerizam a atenção. Pais que se “aliviam” de conviver com os filhos permitem o uso e abuso dos jogos eletrônicos enquanto escapam da aspereza diária da vida e dos relacionamentos e transferem para alguma hora ou dia incerto as suas responsabilidades e deveres inalienáveis da paternidade.

 

Cr & Ag

 

O cronista ao ser lido e digerido intelectualmente pelos leitores permite-se ingressar nas suas “linhas do tempo”, aproveitando o gancho do “face”. A leitura extensiva até de escassa quilometragem como uma singela crônica é raramente efetuada. Testes revelam que os assíduos frequentadores das redes deliciam-se mais por imagens ou curtíssimas frases – muitas simplórias – do que pelo esforço humano da leitura seguida de raciocínio, discussão interna e externa e do entendimento. Felizmente muitos de nós carregamos nos “discos rígidos” ou nos escaninhos do amor transmitido principalmente pelos pais e irmãos as frases, estórias, relatos diversos, contos, episódios, experiências e uma infinidade de recordações conscientes e inconscientes que perfazem e constituem aquilo que somos ou que deixamos de ser.

 

Cr & Ag

 

A frase título “entre San Juan e Mendoza” era usada pelo meu pai Aldo para significar a indecisão. A hesitação em optar entre alguma coisa. Eu construí uma estória em que imaginava um padre que cuidava dos seus fieis em duas cidades, San Juan e Mendoza. Uma cidade torcia pelo Grêmio e outra para o Internacional. Rivais. Não se afinavam. E o padre ali como algodão entre cristais. Eis que o padre resolveu fazer uma capela, uma igreja exatamente no meio do caminho, assim obrigando a que todos viessem aos cultos e cerimônias, misturando-se. Logo deixariam parcialmente a rivalidade, pois os vínculos afetivos iriam se intrometer e acalmar a fúria e o ódio separatório. E gremistas e colorados casariam entre si e seus filhos…

 

Cr & Ag

 

Está se lambendo e espumando nos cantos da boca, sossegue um pouco.  Não enveredarei pela disputa eleitoral e o San Juan e Mendoza de cada eleitor do Brasil espoliado por mentirosos de plantão e gatunos… A construção dessas personalidades familiares e sociais, que somos direta ou indiretamente responsáveis, trilha o caminho que a humanidade perfaz desde tempos imemoriais. Inclusive antes das cavernas onde os sons guturais já tinham um significado e uma intenção. Trazemos cargas genéticas e espirituais que vêm para serem buriladas, aperfeiçoadas, iluminadas. Responsabilidade. Tarefa vital. Chamemos ou interpretemos com palavras, gestos, atitudes e finalmente a pergunta: – que pessoas deixaremos para a humanidade e para o planeta? Estendendo: – que mundo deixaremos para os nossos descendentes?

 

 

 

 

De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 09 Setembro 2014

2014 – 09 – 09 Setembro – De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

De mal com a vida

 

A riqueza de uma língua não está nas ervilhas do vocabulário, mas na profusão criativa de termos que adornam e aperfeiçoam os significados e expressam o íntimo e as necessidades das pessoas. Num certo restaurante, aguardava à fila para pagar a conta do almoço. Uma distinta senhora a minha frente dirigiu-se para a idosa de cabelos mal oxigenados e com a cara de réu e disse-lhe: – Venho ao seu restaurante a algum tempo e quero elogiar o bufê e o atendimento, além do maior cuidado com os pratos. A idosa de cabelos tubianos como cavalo de índio, olhou-lhe com cara de poucos e escassos amigos e sequer um “muito obrigado” saiu de seus lábios. A distinta senhora, já com seus familiares, contou o fato. Um atribuiu como grossura e outro acompanhante como ela está de mal com a vida.

 

Cr & Ag

 

Todos temos aqueles dias que levantamos de pé trocado ou que o azedume, até por causas inconscientes, arruína a jornada diária na proporção da capacidade e habilidade de cada um em não levar para seu ambiente de trabalho ou para o trato com as outras pessoas as suas broncas e desajustes. Muitos conseguem. Outros infelizmente não. Um certo médico era famoso por suas luas. “Ele é de lua, mas é um bom médico!” – diziam pacientes muito pacientes. Se me entendem. Uma funcionária do Bloco Cirúrgico afetada pelo humor agressivo do colega, sussurrou para outra funcionária: – Anda descornado! – de um jeito ou de outro a cadeia ou a corrente negativa já atingiu outra pessoa. Quem?

 

Cr & Ag

 

Dormir com os pés destapados ou para fora da cama também extradita a situação salobra. Essas situações são frequentes quando a condição da azeda, amarga criatura ou de maus bofes é de superioridade hierárquica ou de poder e mando sobre os demais. E muitos desses demais tornam-se suas vítimas eventuais ou de rotina. Ninguém suporta os reclamões ou o mau humor refratário. Sintam que certas correntes ideológicas, já que estamos em época eleitoral, e segmentos profissionais são de características as dores e os sofrimentos que sempre são causados pelos outros – eximem-se da culpa! – atrapalham e emperram as suas existências e da sociedade. Trazem o ateísmo nos corações de aço, pois rejeitam um mundo ou uma sociedade com patrões e empregados. Quem rejeita patrão, logo rejeita Deus, o maior de todos os patrões?

 

Cr & Ag

 

Há criaturas que se aprazem de transferir o fel de suas veias e contaminar o mundo com sua virulência sempre exigindo dos outros o cumprimento de suas responsabilidades e deveres e descontentes com a lei para todos. São cronicamente “perseguidos”, principalmente por sua personalidade deletéria e o assédio do lado negro da força. Sim! São criaturas que o tempo está nublado ou tormentoso a sua volta e geralmente com pouca sorte na vida ou explorados por alguém ou pelo sistema. A enfermidade ou a doença mental de alguns jamais servirá de desculpa absoluta.

 

Cr & Ag

 

Se está de fiofó azedo, que vá adoça-lo! Se o motivo está no sexo, trate-se. Se a causa é ideológica, amadureça ou espere renascer. Sempre será ruim pagar as contas dos outros, seja pelo estado de mal com a vida, seja por supostas dívidas de ancestrais desde o descobrimento do Brasil-zil- zil que nos imputam como responsáveis, das diferenças sociais dos vagabundos convictos ou de quem nunca fez realmente por merecer.

Pedaços – Lúcia Barcelos – Setembro 2014

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Pedaços

 

Talvez a sombra que me segue saiba dos meus passos,
Nas horas em que o sol me abraça e que me aquece.
E neste andar o suor escorre pelos braços,
E neste pensar se pensa o que jamais se esquece!
E os ventos que noutro tempo ouvia,
Talvez durmam nestas horas cálidas…
E quando olho para a areia quente vejo vagos traços
De uma vida toda que antes eu vivia.
Calam-se, no campo, algumas flores pálidas,
Enquanto as agulhas da memória bordam poesia!
Mas eis que de repente o vento pode despertar,
Apesar da sutileza dos meus passos,
E tudo, em versos soltos, transformar,
Ao desfazer este poema em pedaços!

 

Lúcia Barcelos

Negro José – Edson Olimpio Oliveira – Memória

Negro José!

 

 

 

A chuva inclemente, como um mandado divino, tentava lavar o sangue derramado numa guerra insana. Insana como qualquer guerra. Essa ainda era pior. Dizimou durante mais de uma década os sonhos de irmãos numa arena sem limites geográficos nítidos a não ser os marcados pelas patas dos cavalos, pelas rodas das carroças e carretas puxadas por bois e homens, pelas furnas cavadas pelos petardos da artilharia, pelas trincheiras transformadas em covas rasas abrigando mutilados e pelas covas plantadas quando tempo havia para sepultar os mortos…  O inverno invadiu o mês de dezembro afugentando o verão tal qual uma carga de cavalaria rasgando a várzea barrenta. O frio e a chuva deprimiam ainda mais um povo que contava seus mortos e aguardava em vão o retorno de algum filho sobrevivente. Numa guerra não há vencedores, todos perdem. Alguns perdem mais. Outros perdem menos. Se é que seja possível medir a dor de almas dilaceradas.

 

 

 

Negro José. Esse era o nome com que era chamado por quem ainda tinha uma réstia de respeito. Para muitos era somente o Negro. Um dos caminhos de acesso ou saída de Viamão passava pela localidade onde está Gravataí. Ali estava uma muralha natural, o rio e o alagadiço pantanoso de suas margens. Ali um poderoso e rico estancieiro mantinha uma balsa e negros escravos para fazer a travessia segura. E para tal cobrava – a portagem. A guerra exigiu que fossem republicanos ou imperialistas. Deviam tomar lado. A família dividiu-se e com eles esboroou-se a riqueza. Os negros libertos foram formar ombros com os lanceiros negros. E o ainda jovem José, ficou cuidando da mãe e da irmã e principalmente em manter a travessia do rio sempre aberta.

 

A sua força física crescia e se comparava aos esforços dos bois que tracionavam as cordas da balsa. A todos os viajantes ele servia sem exigir nenhum pagamento. Entendia no corpo e na alma a miséria que banhava a terra. Dias e noites. Invernos e verões. Ali estava ele em plantão permanente para seu sagrado ofício. Conquistou o respeito necessário de homens que viam inimigos em qualquer sombra. Transportava militares, ricos e pobres, fugitivos e pessoas de todos os confins.

 

Numa noite, abrigava no galpão logo na barranca do rio um grupo de combatentes farrapos, quando chegou um pelotão de imperiais comandados por um emissário do imperador que trazia propostas de paz na bagagem. Deu-lhes pouso também, abrigando-os da tormenta infernal. Foi somente com sua coragem e dignidade aliadas a um corpo privilegiado pela natureza que impediu mortes em sua casa. Mas o embate trouxe-lhe um ferimento por estocada de adaga que penetrou em seu tórax. Daí em diante sua saúde nunca mais foi a mesma. Por ter salvado o emissário real que depois se soube ser parente do imperador, recebeu uma carta do império com sua alforria e de toda a família e ainda uma gleba de terras onde vivia. E foi mantendo vivo esse importante emissário que a paz foi encaminhada e alinhavada.

 

Nenhum de seus irmãos retornou para casa. A mãe morreu com o coração partido pelo sofrimento. A única irmã casou-se e foi morar na fronteira com o Uruguai. Ficaram ele e a esposa e as cicatrizes da guerra. A guerra findara no papel assinado, mas continuava em muitas mentes. Continuava transportando homens e animais e livrando-os dos atoleiros movediços e mortais que continuavam a engolir os audazes e afoitos.

 

Negro José recebeu um presente a longo tempo ansiado – a gravidez da esposa. O pulmão ferido respirava com muito mais ardor. Os novos dias corriam céleres. Suas largas risadas se misturavam com a música dos sinos diferentes colocados nos dois extremos seguros da travessia. A alegria retornou estrepitosa. Eis que certa noite a dama de negro veio ao seu humilde lar. A amada esposa sentia dores lancinantes e logo um jorro de sangue encharcou seu leito. Montou cavalo e foi em busca desesperada do médico ou da parteira. Encontrou a parteira. A velha acudiu-lhe com a máxima presteza. Os esforços desesperados não conseguiram salvar mãe e filho. O véu da morte cobriu sua vida. Somente a fé e o trabalho o mantinham vivo na triste solidão.

 

Persignava-se como sua mãe lhe havia ensinado desde criança e como sua esposa querida sempre fazia antes do sono. A tristeza reabriu a ferida de seu pulmão. Um sangue escuro tingia o seu escarro. Acessos de tosse cortavam suas noites e destruíam o descanso. Persistia em seu ofício a qualquer hora e em qualquer clima. A vida lhe fugia lentamente. A tuberculose corroia seu corpo e os músculos antes poderosos eram tragados pela moléstia. Definhava. Em curtos sonhos encontrava seus amores sepultos.

 

Negro José terminara uma oração ajoelhado perante um antigo crucifixo de madeira e bronze. Era noite de natal. No povoado próximo as casas tentavam se iluminar e as pessoas dirigiam-se à igreja para a Missa do Galo guiados pelos badalos da torre cristã. Havia chovido torrencialmente nas duas últimas semanas. Um vento frio extemporâneo cortava as faces e mãos descobertas. Ali estava ele em sua tarimba coberto com uns pelegos velhos. Batem à porta. Toc, toc, toc. Três pancadas leves e uma pausa. Novamente três pancadas e nova pausa. Seus ouvidos jamais pregaram peças confundindo o chamado de pessoas com o açoite do vento ou o rumor das folhagens. Levantou-se. Abriu a porta. Ali estava um menino de cerca de cinco a sete anos de idade. Pele alva. Cabelos negros encaracolados. Olhos claros, quase azuis. Andrajoso. O menino falou-lhe:

 

— Negro José, preciso passar para o outro lado.

 

Negro José sentia que a sua voz trazia algum tipo de sentimento ou mensagem que sua mente não conseguiu traduzir. Mas essa também nunca foi sua preocupação principal, precisava executar o seu ofício. A noite em breu só permitia escutar os ruídos dos sinos e da correnteza do rio alimentado pela chuvarada. Colocou o menino na canoa que usava para o transporte de pessoas isoladas e cabresteada por uma longa corda que ele tracionava com a força de seu corpo. O menino segurando o candeeiro que iluminava seu rosto sereno. Negro José fazia uma força descomunal para avançar cada metro de rio. Nem a balsa pesava tanto. Perguntava-se se seria a fraqueza da tísica ou da correnteza do rio. Jamais havia forcejado tanto.

 

As mãos calejadas de uma vida dedicada ao rio começaram a sangrar. Dores atrozes desciam pelos braços escorridos do seu sangue. Olhava o menino e dizia para si mesmo:

– Tenho que vencer, a vida dele depende de mim.

 

A tosse turvava-lhe mais a visão. Conseguiu chegar à outra margem. O alagamento no sarandizal ainda fazia restar mais uns dois quilômetros à segurança fora do pantanal traiçoeiro. Extenuado. Ofegante e sangrando. Teria que fazer o resto do caminho até o sino a pé. Paroxismos musculares jogaram sua face na lama. Levantou-se buscando energias derradeiras e colocando o menino abraçado às suas costas reiniciou a jornada. O céu abriu-se e uma estrela cintilante e solitária surgiu como a marcar o local do som do sino. Cada passo fazia suas pernas penetrarem mais fundo na água e na lama pegajosa. A criança às suas costas parecia pesar toneladas. O sino continuava a chamá-lo. A estrela limpava sua retina e buscava algum equilíbrio num velho bastão de angico. O sangue escorria das mãos do negro tingindo o bastão de rubro. Eis que um tapete prateado formado pela luz da estrela solitária abriu-se a sua frente na derradeira subida. O peso desapareceu. O menino pesava agora como qualquer outro menino. A luz iluminava pessoas que agrupadas esperavam a sua chegada.

 

– Quem seriam elas? – perguntava-se. Estranhamente não sentia mais qualquer dor. A estrela pareceu descer do céu.

 

Negro José escutou a voz do menino: – Negro José, vais conhecer o meu Pai e a minha Mãe.

 

— Eis meu Pai! Eis minha Mãe! – disse-lhe novamente o menino.

 

Negro José viu um senhor de longa barba branca e uma senhora muito bela envolta num manto prateado e logo vindo por detrás deles, com os braços abertos para abraçá-lo seus irmãos, sua mãe e sua amada esposa com seu filho nos braços.

 

 

 

Dia seguinte, Negro José foi encontrado morto com o velho crucifixo de madeira e bronze enrolado nas mãos ensangüentadas com dedos entrelaçados em posição de oração. Uma infinidade de pássaros o rodeava na terra e no céu. Um sarandi abriu-se em flores brancas e perfumadas. O local passou a ser conhecido como Passo dos Negros e o povoado como Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. E sempre que alguém necessita de uma travessia segura e faz uma prece aos céus, a mão forte de um negro surge para conduzi-lo.

 

 

 

 

 

Letras de Sangue – Edson Olimpio Oliveira – Memória 19 Novembro 2006

Novembro 19-2006 – Letras de Sangue – Poema – Edson Olimpio.

 

Letras de Sangue!

 

Por Edson Olimpio Silva de Oliveira

 

I

Sombras! Sombras de dor e morte rondam uma alma dilacerada.

Sombras! Sombras sussurram e agulham um coração gemente.

Sombras! Sombras ecoam palavras de ódio dela, minha amada.

Sombras! Sombras riscam na névoa torporosa um espírito plangente!

 

II

Ah! Como sempre te amei vibrando cada fibra do meu ser.

Ah! Ainda ouço teus risos iluminando presentes desejados.

Ah! Como sempre busquei satisfazer todos teus anseios.

Ah! Ainda ouço teu pranto e pérolas ardentes de teus olhos rolados.

Ah! Como sempre sepultei minh’alma para sempre te ter.

Ah! Ainda ouço o batuque num peito sofrido de amores alheios!

 

III

Amor! Amaste quem não te queria, num ciclo sem fim.

Amor! Buscaste prazer e luxo em leitos de cetim.

Amor! Amaste palavras vazias e carinhos pérfidos.

Amor! Buscaste companhia em corações perdidos!

 

IV

Rosas! Rosas rubras, perfeitas, perfumadas com o hálito do amor.

Espinhos! Espinhos coroam a beleza, mas tocados – vem a dor.

Rosas! Rosas brancas querem refletir pureza da alma apaixonada.

Espinhos! Espinhos são pensamentos, palavras, gestos tormentosos.

Rosas! Rosas douradas pelo sol da devoção que anseiam amor – mais nada.

Espinhos! Espinhos escrevem com tinta de rubis pranteados e dolorosos!

 

V

Sangue! Sangue é vida, é luz, é eternidade – recusaste!

Sangue! Sangue derramado de meus lábios e vertidos em escrita – recitei!

Sangue! Sangue que trocaste por mentiras e enganoso amor – encontraste!

Sangue! Sangue neste poema de letras escarlates – um dia muito te amei!

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