Escritos VII pelo Partenon Literário – Edson Olimpio Oliveira – Outubro de 2015

 

Crônicas publicadas:

A fuga da Rotina!

Uma Viagem ao Litoral!

Um Banho de Mar!

Um Churrasco na Praia!

2015 - Escritos VII Partenon Literário - Eds Olimpio - A fuga da rotina-Uma viagem ao litoral-Um banho de mar-Um churrasco na praia - Especiais de Verão - O humor não tira férias

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Vozes do Partenon Literário VII–Edson Olimpio Oliveira–Outubro de 2015.

 

Crônicas publicadas:

“Digavar e Sempre!”

O Poder da Culpa!

Mulher ou…

O Arigó e as Guampas!

2015 -Vozes do Partenon VII- Edson Olimpio - Digavar e sempre-O poder da culpa-Mulher...ou-O arigó e as guampas

Corisco, Prego e Rosa! – Um Natal iluminado – Edson Olimpio Oliveira – Medalha de Ouro categoria Contos–VIII Concurso Literário FECI (Fundação Educação e Cultura do S.C. Internacional) e Casa do Poeta Latinoamericano – Outubro 2015

 

Corisco, Prego e Rosa!

– Um Natal iluminado –

Autor: Edson Olimpio Silva de Oliveira

 

L

embremos o ano da Dor e da Luz – 1954. Enquanto alguns pranteavam amigos e parentes mortos e sepultados no campo santo de Pistóia, na Itália, outros ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira – FEB persistiam sua vida aqui na primeira capital de todos os gaúchos. Nem todas as mutilações são visíveis no corpo. As lesões da mente e do espírito são mais graves. Um ano de muita dor e sofrimento, o Pai dos Pobres, Getúlio Vargas, morrera no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. O povo brasileiro abraçava-se aos prantos pelas ruas deste país. Mas a Negra Rosa continuava com sua fé inabalável na santa padroeira desta cidade, Nossa Senhora da Conceição. Uma irmã mais velha foi mãe e madrinha desses dois jovens que foram arrancados das peladas no campo da baixada rubro-negra e dos gramados no matadouro dos Pintos para servirem ao exército – Corisco e Prego.

Outro órfão criado nas adversidades da existência crescera com o amor dos religiosos no “abrigo” do Pão dos Pobres e ali aprendeu o ofício de linotipista. Adão Carlos era seu nome. Sua paixão pelo futebol e pelo seu Colorado tornava-o presença constante nos jogos e até em treinamentos e ali era incitado por amigos e jogadores e na ponta da língua recitava as formações dos times, datas de jogos e o placar. O mítico Rolo Compressor era sua maior paixão. E foi por suas mãos que tentou apresentá-los ao técnico Volante. Num desses treinamentos, Carlitos teve a camiseta rasgada numa disputa com Nena, o Parada 18. Ao final do treino, Carlitos tirou-a, beijou-a espremida entre suas mãos e a jogou para jovens que se acotovelavam junto ao alambrado e logo abraçada pelo gêmeo Prego saltando mais alto que todos. Comprimida contra seu coração era um troféu de inestimável valor. E foi com essa camiseta amorosamente costurada, como as tabelinhas de Carlitos e Villalba no Grenal em que seu Colorado ganhou de 7 a zero na casa do adversário, que Prego passeava com a glória de um herói pela velha Setembrina dos Farrapos.

Corisco era um ponteiro-direito que se inspirava no formidável Tesourinha, enquanto seu gêmeo Prego era “negrinho alto de pernas finas e joga de cabeça em pé como cobra dando o bote, é um jogador cerebral”, diziam. Corisco fazia da vida das defesas um inferno e sua velocidade e arte tripudiava dos adversários. A vida tem sempre um senão. Apesar da curta existência no recrutamento, o álcool trazido na mochila dos pracinhas afastava-o do futebol e do trabalho de pintor de residências e lançava-o nas noites sem fim das canchas de bocha e de jogo do osso. Numa dessas noitadas de álcool e jogo, recebeu a visita da dama de negro que lhe acompanhava nos delírios de sepultar e carregar os companheiros mortos na guerra – uma adaga assassina tirou-o dessa existência!

A cidade comentava a morte violenta. As lavadeiras do arroio Mendanha oravam com as mãos dadas num anel de amor todas as noites pela sua sofrida alma. Apesar dos cuidados e do carinho daquelas negras e negros escaldados pelo ancestral infortúnio de sua raça e de “algum branco misturado” o seu irmão Prego começou a definhar. Havia ido jogar no grande time do Renner onde uma fratura de perna impediu-o de ser o Campeão Gaúcho daquele ano. Logo uma tosse insidiosa assombrava o casebre da Rosa. Prego emagrecia dia a dia. Os remédios da irmã e das negras velhas e sábias não surtiam nenhuma melhora. Buscaram tratamentos na Capital e o amigo Adão Carlos acompanhava-os com frequência. Era a tísica, como chamavam a tuberculose, que lhe corroía o corpo extenuado numa tarimba com a preciosa camiseta aberta e fixada na parede a sua cabeceira, logo abaixo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Num mundo em que os fortes e poderosos serão lembrados, os fracos e pobres rumam ao esquecimento. Mais denodo Rosa trabalhava para alimentar e tratar do irmão enfermo. Nas noites delirantes e febris, a irmã amorosa colocava sua cabeça em seu colo e com panos umedecidos numa bacia com água benta passava-lhe nas frontes enquanto seus lábios oravam com fervor. A vida agonizava naquele corpo franzino e dilacerado pela perda do irmão querido.

As toalhas da Igreja centenária de Nossa Senhora da Conceição quaravam ao sol nos gramados atapetados da margem do arroio. Lavadas e engomadas por Rosa, assim como havia sido por sua mãe e avó. O padre entregava-lhe os panos e tecidos mais nobres para que iluminassem os altares e as festas da Padroeira e do Natal. Uma imagem da santa estava numa singela gruta de pedras e coroada com conchas do mar sob uma pitangueira espreitando o arroio e suas lavadeiras. Uma vela especial ardia ansiando graças divinas. Negro Prego talvez não varasse o Natal de 1954, pois golfadas de sangue faziam rubro seus panos e o leito expelidas pela tosse lancinante. A velha galena trazia-lhe o conforto relativo de algum jogo de futebol entre períodos de delírio. Os vizinhos pediam-lhe que a desligasse, pois o incêndio da Casa de Correção em Porto Alegre trazia dor e temor para todos. Somente um sorriso era sua resposta eventualmente. Alguns não entendiam. Seu coração entendia. O amigo Adão Carlos lia-lhe as reportagens dos jornais mesclando com os feitos da epopeia do seu Internacional na esperança de estimulá-lo. Aglomeravam-se crianças e alguns adultos para verem suas narrativas dos golos como o mais entusiasmado locutor esportivo.

Véspera de Natal. A cidade buscava aliviar as suas dores e enfeitava-se para a festa maior da cristandade. Devotos vestiam suas melhores roupas e subiam a lombada de chão cru para assistirem à Missa do Galo. A irmã Rosa persistia orando ajoelhada com o gasto rosário entre os dedos calejados. Batem à porta. Alguns vizinhos contam que uma senhora branca com dois meninos pelas mãos – um negrinho e outro menino com cabelos encaracolados – e saída donde ninguém sabia, batia à porta do casebre. Uma claridade da lua iluminava particularmente aquela casa. Adentrou à humilde morada. Retirou um grande e alvo lenço de seus ombros e cobriu Rosa, Prego e o outro negrinho. Os vizinhos continuavam a espiar. Um tempo depois. Contam que a viram subir aos céus “como se fosse para a Lua”. Outros juram tê-la visto entrar na grutinha de pedra. O certo − Prego milagrosamente amanheceu curado e caminhando à margem do arroio ir ajoelhar-se junto à gruta. Logo no Ano Novo buscou um seminário para se tornar um religioso. Alguém jurou tê-lo visto com uma camiseta vermelha sob a batina negra. E como tal foi um dos escassos padres negros que levou a mensagem de Nossa Senhora aos necessitados e perdidos do mundo. Acredita-se que Corisco atravesse os céus pelas mãos da Mãe Divina.

– E Rosa?

O amor persiste e derrama-se de seu coração e suas mãos ainda trazem conforto e felicidade numa dádiva que a idade jamais diminuiu.

 

Nota do autor.

Viamão, minha cidade natal, que cunhei ser a “primeira capital de todos os gaúchos”, pois foi aqui que de fato nasceu o sentimento pátrio dessa terra disputada por dois impérios e invadida pelos castelhanos do General Ceballos. Também é denominada de Setembrina dos Farrapos pelos eventos na maior guerra entre irmãos da pátria brasileira. É berço da família Oliveira que se confunde com o amor ao Sport Club Internacional. Cidade histórica adornada pela monumental Igreja com paredes de cerca de dois metros de espessura e embalada por suas histórias e lendas. Assim faço esse um mensageiro vivo do amor e da alma de seu autor e do respeito e admiração pelo grande amigo “seu Adão” Carlos Cunha e pelo meu pai Aldo “Cabeleira” Oliveira, cônsul colorado, apaixonados fiéis do nosso Internacional. Igualmente é um tributo à “dona Zulmira” Andrade que nos seus noventa anos, de negra e lavadeira no Arroio Mendanha, carinhosamente chamada entre abraços e beijos de gratidão como “mãe preta” e persiste derramando seu amor e atenção para crianças e demais pessoas.

 

“O sol na meia-noite” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 25 Dezembro 2013

 

2013 – 12 – 25 Dezembro 2013 – O sol na meia-noite – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

“O sol na meia-noite” – um Natal em Viamão

“S

ei lá que ano de Deus ou do Diabo isso aconteceu, mas que aconteceu isso eu não tenho nenhuma dúvida, pois meu avô contava que o pai dele sabia pelo pai dele.” – assim aquele homem quase centenário balbuciava pela derradeira vez essa história aprisionada em sua alma. E continuou: “A revolução tinha acabado no papel falso que assinaram, mas continuava a matança de irmão contra irmão. O rio-grandense sempre foi um deserdado no Brasil e tratado como estrangeiro ou escória por muitos lá do centro do país. Esquecendo que os bandeirantes, portugueses e brasileiros de tudo que é rincão veio fazer família e trabalho aqui com negros e índios, mestiços e castelhanos. Na nossa veia corre o sangue de sobreviventes e de guerrilheiros. E foi um desses desgarrados que aportou por aqui. Seu nome real jamais se soube, mas atendia por Nego Bento e sempre abria um sorriso de coivara e um riso rouco pelo palheiro aceso entre dedos mutilados. Falava pouco e ria muito. Ria até demais, talvez a enorme cicatriz que deformou sua orelha esquerda explicasse algo. Arrastava a perna esquerda e por vezes puxava-a com a mão, pois parecia que ela queria ficar dormindo em algum banco ou num pelego encardido.

Perambulava aqui e ali. Não recusava uma caneca de café quente ou uma broa de polvilho. Ainda mais um prato com batata doce e feijão mexido. E… quase esqueci! Tinha o Cão. Isso mesmo, um cachorro que atendia por Cão. Podia assobiar ou chamar ou oferecer comida, olhava com os olhos tronchos e enfiava o focinho entre as patas. Era outro sem eira nem beira. Mas nunca se largavam. Onde estava um, podia saber que ali perto estava o outro. E antes do Nego Bento comer, o Cão comia. Algum serviço descarregando as carretas no armazém, costeando ovelhas nos Fragas ou lavando a Igreja. Ele tinha um amor e uma dedicação especial à Igreja e ficava horas a fio olhando para uma imagem de Nossa Senhora. Chegava a dormir e cair do banco. E o padre deixava o Cão entrar com ele. Era o único cachorro da cidade que entrava na Igreja desde que não fosse dia de festa, casamento ou missa.

E assim como Deus fez primeiro os bichos e depois as pessoas, a maldade sempre existiu e gente maligna fazia troça feia com o Nego Bento. Certa feita um tropeiro deu-lhe um baita palheiro que chegava ser loiro de tão bonito. Ele acendeu com gosto e na terceira ou quarta tragada não é que a coisa explodiu numa fumaceira preta. O infeliz botara pólvora no cigarro e quase cegou o homem. Ele só parou de rir e quando sentiu as presas do Cão enterrar no braço maldito. Puxou da adaga para sangrar o cão, mas foi calçado com dois canos apontados para seu peito e enxotado da vila com a criançada atirando pedras.

O inverno não tá só no tempo, tá no coração de muita gente também. Mas um frio temporão saiu da goela dos castelhanos e o minuano abriu o berro nas cumeeiras e nas esquinas. Uma garoa tisnada de cerração escondia o sol. Lembro que na enchente de 41(1941) dezembro azedou de vez e fez dias de inverno. Mas voltando ao sucedido. O pessoal puxou as lãs dos roupeiros e dos baús e forrou as camas e as tarimbas com os melhores pelegos. Uma tal de Rosa, beata por demais, presenteou com um casacão e roupas do finado marido para o Nego Bento. As botas não serviram. O pé era grande uma barbaridade. Os fogões roncavam e a lenha era picada com machado afiado e o cheiro de doce estava em tudo que era casa. As figueiras ficaram peladas. O Natal se avizinhava e se presenteava com compotas, chimias, goiabadas, beijus com amendoim ou até uma peça de tecido encarnado.

Nego Bento passava mais tempo na Igreja, ali no altar da Senhora da Conceição. Ria e cochilava. Por algum motivo começou a enjeitar a comida. – “Vem Nego Bento, a boia tá gostosa demais!” – ria e ficava sempre no mesmo lugar com o Cão de companhia. Preparavam a Igreja para a Missa de Natal. Seria o primeiro Natal dele aqui na terrinha. Não parecia doente. Nem tosse tinha mais e ali mesmo nunca fumava palheiro. Foi uns dois dias antes do dia que Jesus Cristo nasceu que aconteceu. O pessoal escutou um toque de música tarde da noite e o vento tinha sumido como por encanto. Uma noite estrelada e a lua era um clarão só. Parecia um sol na meia-noite. Acenderam os candeeiros e abriram as janelas. Todo mundo ouvia a música. Vinha da Igreja. O pessoal se foi pra lá e o padre abriu as portas. Por uma tábua solta no forro e alguma telha deslocada pela ventania entrava a luz da lua e iluminava o Nego Bento e o Cão. Sentado com a cabeça do Cão na sua perna. Os dedos enlaçados e o riso aberto para a santa. Parecia que a Nossa Senhora e o Menino riam para ele. Nem parecia morto. Pouco tempo viveu aqui, mas trouxe uma luz nunca vista. A gente geralmente lembra das maldades e esquece as benfeitorias. Vamos lembrar do Nego Bento! Sabe-se que o padre sepultou ele em algum lugar da Igreja. Claro que escondido do Bispo. Tô lhe contando pro amigo contar aos outros.” Contei!

Feliz Natal e maravilhoso 2014!

2013 - Natal 1

2013– Palavras Desavisadas de Tudo – Antologia – Edson Olimpio Oliveira – Corisco, Prego e Rosa . Um Natal em Viamão.

 

Capa Principal

Texto de Edson Olimpio Silva de Oliveira

 

A Negra Paciência – Lendas de Viamão

 

Especial de Final de Ano 2006 –  Negra Paciência – Uma Saga de Amor

 

Especial de Final de Ano.

Série Lendas de Viamão.

 

A Negra Paciência!

Uma Saga de Amor.

 

Os dias se arrastavam no tranco das carretas pesadas dos mascates que faziam a festa daquela vila em torno da sua capela. Campos de Viamão era um de seus nomes. Um povoado como tantos outros perdidos na imensidão de terras em que as únicas cercas eram aquelas marcadas pelas patas dos cavalos e pelo aço das lâminas sedentas de sangue. O gado criava-se solto e as marcas de seus donos refletiam o seu poder e a sua riqueza. O Brazil português terminava em Laguna numa fronteira invisível aos conquistadores da terra. O inverno precoce já se anunciava naquele abril dum ano esquecido. O hálito gélido do minuano estava se alternando com dias sonolentos de um mormaço que afogueava os cães, fazia a peonada buscar uma sombra de figueira e deixava os escravos com o compromisso de abanar os mais abastados.

 

 

                               Paciência! Somente Paciência era o seu nome. Os negros e escravos não tinham sobrenome. Muitos nem conheciam seus pais. Mas todos conheciam seus donos. A negra Paciência acompanhava esta família a duas gerações. Não mais existiam escravos nesta casa ou nesta família, ao contrário de muitos outros estancieiros. Os seios fartos mostravam sua aptidão de ama de leite. E foi assim que amamentou seu atual patrão. No lugar do seu filho devorado por uma febre maldita e fatal, o leite continuou jorrando para alimentar aquela criança prematura que perdera a mãe em seu nascimento. Uma mãe sem filho. Um filho sem mãe. – Uma curiosa armadilha de deuses preocupados com as guerras e alheios à dor e ao sofrimento das criaturas. – dizia em tom solene aquele homem que um dia envergou a farda do império como cirurgião e agora devotava sua vida cuidando de gente e de gado nessas paragens tempestuosas..

 

A casa grande guardava dentro de suas grossas paredes a alegria e muito da dor de seus moradores. O fardo inexorável do tempo já lhe arqueava as costas. Na grande cozinha um fogão faminto por mais e mais lenha permanecia sempre aceso. Dias e noites. A qualquer hora aquela mulher estava ali em seu posto. – Parece que tu nunca dormes Paciência! – dizia-lhe o patrão. Somente um sorriso afetuoso trazia a resposta. A grande chaleira de ferro sempre com água quente. Vezes que tropeiros e viajantes buscavam pouso ou quando o patrão retornava das longas viagens, a negra Paciência parecia saber a hora da chegada, pois ali esperava com sua deliciosa comida quente. O seu coração sentia como se fosse avó daquelas duas crianças filhos do patrão. A ternura e o amor devotado era resultado de um espírito grandioso manifestado numa vida de amor e perdão.

 

A Páscoa se anunciava. A negra Paciência já fazia os doces, muitos doces para a festa que fazia do povoado um lugar mais alegre com os risos das crianças. – Cristo daí paz e amor a esta família e liberdade a todos os meus irmãos. Faça com que todos os patrões libertem seus escravos como fez meu antigo patrão. – orava ajoelhada fitando a cruz dourada colocada em oratório na cabeceira da mesa grande.

 

Tiros de mosquetão. Berros de garrucha. – Cristo nos ajude! – gritou instintivamente Paciência. Bandoleiros portugueses e espanhóis infestavam essa terra numa sina de roubar e matar. Como se isso não bastasse, violavam as mulheres e queimavam as casas. Gritos de dor e morte. O patrão e a peonada estavam nas lides de tropeada. Logo os empregados estavam mortos ou dominados. Correu para o quarto da patroa encontrando-a com armas à mão e as duas crianças acotoveladas num canto. Essa parte da casa tinha portas e janelas de madeira reforçada. A algazarra e os relinchos de cavalo cruzavam pelo pátio iluminado por tochas de fogo como num ritual macabro. Escutava-se que já estavam dentro da casa. A patroa ordena-lhe que abra o alçapão escondido sob um grande tapete no assoalho. Por ali desceria ao porão e por uma abertura dissimulada poderiam buscar auxílio e proteção na vila. Manda-a descer com as crianças. – Vem patroa! Vem patroa! Por Cristo e seus filhos vem… – não pode concluir a frase. Da janela arrombada um tiro de escopeta tingiu de rubro a longa camisola branca que a luz do candeeiro fazia a vida tornar-se espectro.

 

Paciência caiu escada abaixo. Com a agilidade de uma pantera negra acuada protegendo sua ninhada ergueu-se com as crianças nos braços. O peso da idade dera lugar ao fardo da responsabilidade e do amor. Esgueirou-se pela fresta de pedras e ganhou a companhia da lua correndo pelo mato. O fogo voraz que se alastrava pela casa lançava fagulhas que como estrelas da morte singravam o manto negro do firmamento.

 

Alguém está fugindo! – gritou uma voz assassina.

Traga-lo! – berrou um demônio castelhano que comandava a horda.

 

Um homem esporeou seu cavalo. Não deixavam testemunhas vivas. Paciência conhecia aqueles matos como a sua cozinha. Trilhas que levavam à vila e à igreja eram como as veias do dorso de suas mãos. A cavalo seria mais difícil segui-la. Sabia disso. A vila já saíra de seu torpor, pois alguém tocara o sino da capela e vislumbrava-se o fogo lambendo o céu. – Ele está perto! – pensava com o coração em desabalada carreira. Escutava o mato se quebrando e o fôlego das ventas demoníacas em seu encalço. Sabe que será alcançada logo. Então, num derradeiro esforço esconde os dois irmãos no oco da velha figueira. Cobre-os com a sua sobre-saia negra.

 

Ali está o predador maligno frente a frente com sua presa. E sem esperanças um raio de aço e morte desce sobre Paciência. E mais outro. A negra ajoelha-se e vislumbra seu algoz com a lua ancestral por testemunha. O maldito pouco pode saborear sua vitória. Estampidos e o cheiro da pólvora preta se acompanham de densa fumaça. Ele tomba mortalmente atingido pelo povo da vila que acudiu. A montaria dispara alucinada.

 

A fenda fatídica jorrando a rubra vida que se esvaía descia do pescoço ao meio dos seios. O sangue afogava-lhe a respiração e com os olhos arregalados e a mão apontava para o esconderijo da figueira. A mão! Enrolada na mão direita estendida em flecha estava o símbolo de sua fé – um crucifixo. As crianças foram salvas. Ninguém mais sobreviveu ao cruel assalto. Logo o pai encontrou os filhos.

 

A negra Paciência foi sepultada com honras de heroína ao lado da patroa. E ali naquele local onde seu sangue foi derramado, ali naquele local que se chamaria de Várzea de Dom Diogo – hoje Campo do Tamoio, verteu na manhã de Páscoa uma fonte de águas cristalinas. Logo foi chamada e conhecida – a Fonte da Paciência! Durante muito tempo as mães iam ali buscar a água que aliviava ou curava seus filhos orando pela proteção da Mãe-negra. Ali seus irmãos libertos construíram um arco de pedras em gruta como o oco da figueira protetora. Um útero de pedras para crianças renascidas, libertadas do abraço da Morte pelo Amor.

 

 

O tempo pode toldar o fluxo da memória de um povo. O amor e a gratidão, mesmo com o esquecimento dos fatos, ainda marcam o local da Fonte da Paciência – a fonte do amor da negra Paciência! Alguns corações desejam ver ali a negra protetora na lua de Páscoa esquecendo que seu amado Cristo transformou seu sangue numa fonte de vida e esperança, sem espectros!

 

 

Nota do Autor:    Viamão, uma cidade histórica, lembrada por ter sido Capital do Rio Grande do Sul, cantada em verso e prosa como a Setembrina dos Farrapos, tem a segunda grande Igreja construída neste Estado. Aqui no Centro da cidade, à rua Luiz Rossetti ainda se vê a Fonte da Paciência. Abandonada. Destruída. Reconstruída várias vezes pelo humor dos que preservam o patrimônio e a memória de um povo. Felizmente ainda está ali!