Antologia Casa do Poeta Rio-grandense – 2017. Livro recomendado. Participação de Edson Olimpio Oliveira.

 

Antologia Casa do Poeta Rio-grandense - 2017

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Explique! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 16.

 

 

 

EXPLIQUE!

 

 

O tempo de semblante franzido enrugava o céu com nuvens plúmbeas já deitando pesadas gotas de chuva. Há cerca de meia-hora havíamos colocado os abrigos de chuva. A chuva começou a aumentar e as gotas transformaram-se em martelos d’ água ferindo a viseira dos capacetes e o pára-brisa da Morgana, nossa motocicleta. O bom senso, as regras de segurança e a pilotagem defensiva nos orientam a buscar um abrigo ou pilotar em ritmo seguro até sair da chuva ou das tormentas. Como não havia nenhum tipo de abrigo humano, os eucaliptos isolados a margem da rodovia são armadilhas perigosas tanto por raios como por quedas de seus galhos ou até o tombamento por completo desses gigantes de origem australiana.

 

 

A Morgana mantia seu ritmo constante, empurrada por seu poderoso coração de 1500 cc. Íamos ultrapassando os caminhões e fugindo de seu spray de barro-água-óleo. Logo o asfalto estava lavado do óleo desses monstros de metal e pneus. Alguns automóveis parados no acostamento com lanternas ligadas criavam uma moldura luminosa nesse quadro que é aterrador para muitos, despertando fobias enclausuradas. O dedo enluvado serve como limpador de pára-brisa na superfície da viseira plástica do capacete. Como uma cobra gigantesca, a estrada vai se contorcendo e carregando em seu lombo as nossas alegrias e apreensões. Em alguns trechos a chuva diminuía de intensidade, talvez parando para abastecer-se na Lagoa dos Patos, nas Lagoas Mirim e Mangueira e logo vir novamente a despejar nos renitentes viajantes a sua violência.

 

 

Então, chegamos num local em que havia vários carros e caminhões estacionados no leito da rodovia com as rodas sob alguns centímetros de água. Um véu líquido cobria o corpo da estrada. Ao lado direito, um enorme açude levantava ondas. Uma maresia de estimular surfista. O céu transformava o dia em anoitecer. Abrimos e, pela pista contígua, fomos vagarosamente até estacionar junto à traseira de uma imensa carreta. A uns cem metros a sua frente o tráfego era permitido somente num dos sentidos, pois o lençol de água cobria parcialmente a cabeceira de uma ponte de concreto.

 

O caminhoneiro, segurando os demais veículos atrás de si, permitia a passagem dos outros no sentido contrário e media, creio eu, avaliava as condições. Senti quando ele engrenou a marcha, a fumaça negra regurgitou acima da cabine laranja.

 

 Engatei a marcha na Morgana e ela desfaleceu. Apagou. Morreu o motor. Mas como?! Isso não é de seu hábito. Tentei várias vezes o botão de arranque e nada. Desengrenei, ponto morto, bati arranque – nada. O arranque dava voltas como a massagear o tórax de um coração parado. Nada. Os veículos atrás de nós lampejavam seus faróis e alguns buzinavam. Lentamente, empurrei a moto para o acostamento submerso e coloquei-a em seu apoio lateral. Como contas de um rosário todos acompanharam a carreta. Tristemente eu examinava a Morgana.

 

Uma raiva despontava dentro de mim. Súbito, buzinas e buzinas. Luzes piscantes iluminando a negritude da tormenta. O aterro da cabeceira da ponte cedeu engolindo parte dos rodados da carreta. O veículo, logo atrás, uma camionete, ficou atravessada na goela maldita. Desespero geral. Outros carros manobrando para retornar e escapar. Eis que a chuva amainou e pode-se avaliar o risco e o desastre. Ninguém ferido. A carreta ficou ali trancada, semi-tragada pela água. A camionete saiu rebocada. Depois da convulsão, voltei a Morgana. Teríamos que retornar. Estranhamente, o motor funcionou perfeito, redondo. Como se nunca houvesse qualquer tipo de defeito. Embarcamos e retornamos e o resto da viagem aconteceu sem maiores dificuldades.

 

 

No silêncio do capacete, revisei os fatos. Os motores de motocicletas são planejados para suportar a ação da água desde que não mergulhe e os escapamentos não fiquem submersos. Nada disso tinha acontecido e muitas outras chuvas e tormentas já havíamos enfrentado, sem problemas. Então, lembrei-me que na tradição do Rio Grande do Sul há inúmeros relatos de que o cavalo refuga um caminho ou uma estrada se pressente o perigo. Seria isso com a Morgana? Ou talvez, o anjo de guarda de plantão? Sorte? Casualidade?

Moto - Paixão Eterna - 16 - 2017 - Apocalipse

Enquanto os Cães ladram as Motocicletas passam! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Crônica 15. Série – Moto! Paixão Eterna.

 

 

 

Enquanto os Cães Ladram as Motocicletas Passam!

 

 

Existem dois tipos de seres humanos: os que adoram motocicletas e os que adoram e ainda não sabem. Ou ainda aperfeiçoando esse tema: existem os motociclistas e aqueles que um dia foram ou serão motociclistas. O amor à moto é algo tão intenso que dizia um texto num encontro internacional:

 

 — Um dia ela chegou-se e disse: A moto ou Eu! Às vezes, sinto alguma saudade dela.

 

 Para os menos afeitos ao tema, explico que “motoqueiro” soa como pejorativo. Lembra aquele indivíduo passando sobre calçadas, violando faixas de segurança, sem capacete, quebrando espelhos de carro, “cortando” nas ruas e estradas, queimando pneu e escapamento aberto a infernizar ao condomínio ou ao bairro. Motociclista é a evolução. É um tipo “você conhece, você confia”. Mas invariavelmente, todo motociclista ainda guarda em seu íntimo, contido pelo seu superego, uma fera roncando forte. Motocicleta de alto valor ou uma gorda conta bancária não faz um motociclista.

 

Motociclismo é liberdade. Nada mais democrático que motociclismo.

 

A moto nasceu para todos. A criatura é livre, liberta, como espírito e como motociclista. Deus deu asas aos anjos e motos aos homens. Temos a versão bíblica que Deus fez a Luz e após a motocicleta. E Adão só veio depois para ser companhia ao Criador. E a Eva? Veio para acompanhar o Adão já que Deus por estar em todos os locais ao mesmo tempo estava pilotando muito pouco. Num grupo de motociclistas temos o agricultor, o balconista, o profissional liberal, o mecânico, o político (é verdade!), o Procurador Geral da República, o mega-empresário e uma infinidade de ofícios que se nivelam pelo amor à motocicleta.

 

Motocicleta tem quase todas as vantagens da mulher e mais: sem cunhado ou sogra. Moto na rua, depressão em casa. Com a minha gata na garupa, pra que Viagra, Irmão!

 

 “Uma manhã qualquer, ligue sua moto, coloque o capacete, acomode-se para pilotar, uma estrada e vários destinos, o frescor no rosto, o aroma da vida, os odores do mundo, a liberdade e as amizades…”

 

Como não existe motociclista velho, somente uns mais veteranos que outros, a máquina funde o passado com o futuro.

 

“Um dia frio, gélido, a moto deslizando pela coxilhas do Rio Grande sem fim. O calor do motor sobe suave em nossos corpos. Um restaurante à beira da estrada. Paramos. Retiramos os casacos de couro e nossos capacetes. Olhos nos olhos. Roçar de narizes. Retiramos as luvas. Mãos com mãos. Vapores de nossos hálitos se fundem num beijo demorado. Então um café bem quente com um pastel tirado na hora…”

 

“Avião é trabalho, moto é prazer” (Comandante Rolim da TAM).

 

Mas moto é vitória, sintonia e equilíbrio. É a melhor terapia de casais. É o único e sensato triângulo amoroso. Quase um milhão de motos são produzidas anualmente no Brasil. Quem contar com o voto dos motociclistas se elege fácil-fácil.

 

 “Meu reino por uma motocicleta”.

“Moto: Independência ou Morte! E acabei na Agrale”. 

“Duas Rodas, revista, cerveja e mulher! Pra que mais?”

 

Quem conhece ama.

Quem ama respeita.

Quem respeita vive melhor.

Viva! Viva! Viva a Motocicleta!

 

Crônica 15 – Republicada na Série Moto! Paixão Eterna – Janeiro 2018

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Moto - Paixão Eterna - 15 - 2017

Naquele Dia dos Namorados! Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 14

 

NAQUELE DIA DOS NAMORADOS

 

“Que outro motivo melhor para viver do que viver para amar?”

 

As motocicletas estão estacionadas a poucos metros de nós. Um boteco. Humilde e rústico bolicho escondido numa curva de uma estrada qualquer nesse sofrido Rio Grande. Uma pequena varanda com duas mesas vermelhas, enferrujadas, onde ainda se vê um logotipo de cerveja. Cadeiras de ferro acomodam nossas costas em longa jornada. Jogamos os pés sobre a cadeira à frente. O sol também tenta se acomodar atrás de um cerro.

 

O bolicheiro oferece pastel feito na hora. Aceitamos. Os companheiros pedem cerveja. Contento-me com um café com leite. O hotel nos aguarda logo ao lado do posto de gasolina. Ali vamos passar a noite. Eis que um dos companheiros vê na mesa de ferro vermelha um coração. Sabes, desses corações riscados com ponta de faca ou de um estilete ou chave? Ali estava um coração com uma flecha que o transfixava. “Maria! Continuo te amando. Zé C.S.” – assim estava gravado.

 

Enche o copo e toma de um só gole – Glunc. Sentimos algo por acontecer. Ele sempre foi um homem sentimental. Um romântico que ao escutar a melodia de um chorinho, rolam maresias de lágrimas de seus olhos.

 

Terceiro copo de cerveja – glunc! Nos preocupamos. Não é do seu hábito beber assim. Joga-se para trás na cadeira e dá um grande suspiro erguendo os braços aos céus. Como numa súplica. Há um enorme silêncio em volta. Até o cachorro do bolicheiro ergue a cabeça para assistir e aguardar o desfecho. Chegam rápidos os pratos com pastéis e após passar um pano manchado para limpar a mesa, coloca-os ali. Com o mesmo pano, limpa as mãos e a fronte. Aquele homem rude sente a presença de tormenta no ar.

 

As respirações tornam-se densas. As motos estão ali e seus faróis, como olhos arregalados, nos espreitam como cavalos sentindo o espírito do dono. Outro suspiro soluçado e joga a cabeça sobre os braços cruzados sobre a mesa. Um choro que logo se torna convulsivo. O espanto cede passagem ao “que foi companheiro”, “que que é, meu”, “que é isso, cara”. Um braço por cima do amigo. Apreensão. Nunca o vimos assim. É um emotivo, mas assim já é demais para o nosso conhecimento.

 

Tantos quilômetros de estrada, de repente seus olhos se cravam num coração riscado numa mesa vermelha de ferro e o homem desaba. Pior do que rodada de moto andando numa curva da BR 101 a 160 km/h.

 

“Ah, que saudade dela! (soluços). Que falta ela me faz. (choro). Vejo os seus olhos refletidos na viseira do meu capacete. Vejo aqueles cílios em que eu passava os dedos e após os beijava, lhe dizendo: os olhos que eu beijo com todo meu amor jamais terão vistas para outro homem. Ela sorria. Ela sorria de um jeito que fazia meu coração parecer pandeiro na avenida, cara. Minha respiração engasgava como carburador desregulado. Eu tremia perto dela. Sério, cara. Essa mulher ajeitou e bagunçou a minha vida. Nos encontramos por acaso. Foi numa festa de fim de ano. Namoro rápido e fomos morar juntos. Uma paixão me explodia as entranhas dia e noite. Era direto, entende. Enfiei a moto na garagem. Não pensava em mais nada além Dela. Era como se a esperasse a vida toda. Era como se a conhecesse de outras vidas”.

 

As palavras saiam aos borbotões de seus lábios. Frases atropeladas. Todos ali mudos na platéia.

 

“Então lhe comprei um presente para o Dia dos Namorados. Estranhei ela não estar em casa quando cheguei. E não chegou mais. Nunca mais. Procurei, telefonei. Hospital. Polícia. IML. Nada. Sabe? Nada de nada. Quase morri. Dá para entender o que é morrer de amor ou por amor, companheiros? E até hoje continuo procurando-a, aguardando que ela abra a porta… que a encontre em alguma estrada da vida em que passo com a minha moto”.

 

Então, limpou as lágrimas com o lenço retirado do pescoço. Pegou um pastel frio e gorduroso e deu ao cão que estava sentado ao seu lado escutando-lhe. O cão refugou o pastel e saiu esgueirando-se entre as cadeiras. Outro companheiro ergueu o copo num brinde silencioso. Talvez numa prece. Comi aquele pastel de charque. Salgado como a vida. Pagamos a conta e fomos buscar o hotel. Amanhã será um novo dia. Estradas. E que sabe o anjo protetor dos motociclistas traga a sua amada algum dia.

Moto - Paixão Eterna - 14 - 2017 - Sons of Anarchy

O que eu fiz e o que eu deixei de fazer! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 05 Dezembro 2017.

 

O que eu fiz e o que eu deixei de fazer!

 

Para muitas criaturas, talvez para a maioria, o final de ano se encarrega de esgotar as energias restantes nas baterias dos nossos corpos. Ansiamos por aliviar as cargas de um ano sofrido por salários atrasados, defasados e ausentes. Almejamos um período de festas natalinas de mais calor humano, alívio na desgraça da insegurança diuturna e esperamos que o 2018, que se avizinha, que se abre no horizonte, seja um período de mais graça e harmonia. Criminosos sejam trancafiados nas masmorras e cidadãos com liberdade de trabalhar e aproveitar as luzes do seu trabalho. Aspirar uma Justiça brasileira com mais dignidade e consciente de “direitos adquiridos” e “vantagens devidas” seria quase uma miragem no deserto gilmarmendesliano que opta por aliviar criminosos, amizades suspeitas, genialidade familiar e outras nuances ausentes do modelo moro. Jamais generalizamos e sentimos juízes corretos desautorizados pelos “divinos”. Criminosos são solidários entre si, até certos limites. Eleitor é solidário com persistir em eleger a escória nem sempre mascarada, mas sempre putrefata, sendo lacaio do corrupto-ladrão.

Crônicas & Agudas

Moribundos vêm o “filme da sua vida” descortinar-se aos seus olhos. As criaturas são mais reflexivas na desgraça ou nos estertores finais de suas energias. A ampliação da consciência e o deslindar da teia que construímos a nossa volta pode ser melhor vislumbrada nas festas de final de ano? Observa-se que a sintomatologia depressiva ou as dores daquilo que perdemos, daquilo que nos foi tirado e daquilo que não realizamos serão maiores agora. Muitos persistirão escondidos atrás de máscaras de riso, nocauteados pelo álcool ou no umbral infernal das drogas. Há quem veja o ser humano como algo iluminado e maravilhoso e degenera-se por culpa do sistema, dos maus amigos e… dos outros. Outros descortinam seres cruéis, mesquinhos e predadores que se espalham virulentamente destruindo o planeta e outras criaturas. Como você se enxerga? Há salvação?

Cr & Ag

O ensinamento de “dar a outra face” foi corrompido e nos exigem complacência e submissão completa e degradante. Quando uma autoridade policial ou judiciária atenua a culpa do criminoso alegando que “ele/ela reagiu”, transfere o ônus da culpa e da responsabilidade para alguém que é vítima. Seria uma atitude vil, infame ou canalha da autoridade? Ele deveria proclamar que “qualquer vítima” deveria ter e poder usar de todos as armas para defender sua vida e a sua família e que geralmente a polícia é insuficiente, negligente ou algemada pelas falanges dos “direitos humanos” e do famigerado ECA?

Cr & Ag

Se alguém quer continuar dando outras faces possíveis que sejam a sua e de sua família, mas ninguém tem o direito de exigir o mesmo dos outros. O juiz Moro continuou, com outros colegas da mesma idoneidade e personalidade, a punir os criminosos e escancarar ao mundo a devassidão da maior organização criminosa já descoberta no mundo dito mais civilizado e não nas ditaduras bolivarianas e da ferocidade tribal africana. A dignidade não inicia no congresso ou no submundo sindicalista, ela nasce no lar de cada família, cresce e evolui pela qualidade de seus princípios. A humanidade e a medicina viam o pus como algo necessário e saudável e acreditavam que as doenças tinham como causa absoluta os pecados (?) humanos. Os micróbios e seus tratamentos e curas são muito recentes e atrasadas em relação ao tempo. Hereges aqueles que insistiam em buscar a cura ou tratar as pessoas. Golpistas! Observe como há semelhanças no aqui e no agora!

2017 – 12 – 05 Dezembro – O que eu fiz e o que eu deixei de fazer – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

www.edsonolimpio.com.br

P9 - Galo-Gato - 2016-09

Declaração de Amor! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 13. Reedição–Dezembro 2017.

 

 

 

"SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU."

 

 

 

 

DECLARAÇÃO DE AMOR.

 

 

 

                                               Algumas pessoas desconfiavam. Outras sabiam. Certos amigos mais próximos desaconselhavam este relacionamento. Até achavam-no perigoso. Mas meu coração acelera e trepida a sua lembrança. A sua voz e corpo bem feitos continuam a deslizar em minha mente à lembrança dos momentos que juntos passamos.

 

 

                                      Amanheceu um lindo dia de sol. Os raios de sol esgueiravam-se para entrar pelas venezianas. Havia sonhado com ela esta noite. Seu nome… Morgana.  Minha esposa já havia se levantado e estava arrumando a casa e os filhos. Vesti-me apressadamente. Subtilmente saí de casa. Fui ter com ela. Abri a porta silenciosamente. Era penumbra em seu quarto. Ela ainda dormia. Coberta por um alvo lençol deixava entrever suas curvas sensuais. Braços abertos como a me esperar. Sua traseira firme e arredondada onde tantas e tantas vezes acomodei-me, trocando afagos e juras de amor. Deslizei a sua volta, admirando-a. Fui descobrindo-a lentamente. Acordei-a. Seus olhos grandes brilhavam de encontro aos meus em lampejos de paixão consentida. Havia uma marca de umidade no lençol… Certamente também sonhara comigo. Deslizei a mão por seu peito. Abri minhas pernas e acomodei-a. Mãos com mãos num toque de fusão absoluta de corpos e almas. E ela já bem acordada, ligada, sussurrava ritmicamente debaixo de mim. Todo meu corpo vibrava com ela. Sentia aumentar o calor vivo de seu corpo frenético. Nós nos consumávamos em amor pleno, total e eterno. Ela estava satisfeita. Pronta, convidando-me para passear. Eu estava esperando.

 

 

 Então subitamente a porta do quarto abriu-se… Era minha esposa. Surpresa? Não! Nós a aguardávamos. Cumprimentou-a, abraçando e beijando amorosamente a Morgana, esse amálgama de feiticeira-amor. E juntos, abraçados, faróis ligados, capacetes na cabeça, saímos a rasgar as estradas da vida neste belo e harmonioso triângulo amoroso: eu, minha esposa e Morgana, a nossa motocicleta.

 

Nota do Autor: Crônica vencedora de Concurso Literário Nacional.

Moto - Paixão Eterna - 13 - 2017 - Lawrence da Arábia

A Vida que pedimos à Deus! Edson Olimpio Oliveira. Crônica 12. Série: Moto! Paixão Eterna.

 

 

 

A Vida que pedimos a Deus!

 

 

Segundo as mais recentes versões de pergaminhos encontrados no Mar Morto, o Criador, após o merecido descanso no Sétimo Dia, precisava dar um toque final a sua magnífica obra – e assim fez-se a Motocicleta.  E desde imemoráveis épocas, a humanidade tem se dividido em duas, somente duas, espécies de seres humanos – os que amam motocicletas e os que ainda não sabem que amam!

 

O relato seguinte é uma querida rotina em nossa vida. E, certamente, similar nas existências de milhões de motociclistas.

 

A maioria de nós não sai de moto com a freqüência que gostaria. Alguns pelos “inarredáveis compromissos”. Outros “por medo da estrada, da chuva, da falta de companheiros, da distância, da…”. Outros, ainda, por não ter moto. E para qualquer caso, que isso sirva de incentivo, de fé e coragem. Uma mensagem de que o tempo continua passando e nós… Muitas vezes, perdendo tempo. Leiam Quem Mexeu no Meu Queijo!

 

A semana sempre fica muito longa quando o fim de semana nos levará a passear e viajar com a Morgana – nome dessa deusa que realiza nossos mais fantásticos sonhos. Trabalhamos com muito mais vontade. Nessa semana sairemos após o almoço na quinta-feira. Outras vezes saímos na sexta. Quando o destino é alguma região acima de Laguna, em Santa Catarina, o plano é sempre pernoitar no Hotel da Lagoa na histórica cidade de Anita e Garibaldi. Viamão foi a primeira capital do Rio Grande do Sul. Também uma cidade com um passado histórico a enobrecer os seus filhos.

 

Despedimos da família. Os nossos cães, chefiados pelo Peludo – idoso cão de três patas e um mestiço collie-pastor, acompanham-nos até o portão. Escutamos os seus latidos de “boa viagem” e “vão com Deus” por um tempo nos recônditos de nossos capacetes. Logo, eu, minha esposa e a Morgana, deslizamos pela RS 118. Os quase 20 km dessa estrada servem para aquecerem os pneus, sentirmos o funcionamento da Morgana e criarmos a nossa unidade. Logo estamos rasgando a BR 290, chamada de “Free-Way” pela gauchada. Aqui já começa uma sintonia com os demais veículos e seus tripulantes. Desde o deslumbramento de crianças até os gestos de dedos em V (Vitória) ou com o polegar erguido das demais pessoas. Quase ninguém fica indiferente. Osório, a cidade de todos os ventos, fica para trás quando tomamos a Estrada do Mar que nos levará até Torres.

 

Torres, a mais bela praia do Rio Grande, está na divisa com Santa Catarina. No Posto Ipirangão, já na saída de Torres, abastecemos a Morgana e esvaziamos os nossos tanques. As paredes da lanchonete são cobertas por adesivos de todos os tipos e tribos. Ali está o nosso – 1a. Capital Equipe. Temos por decisão distribuir decalcos a todas as pessoas que mantém um intercâmbio conosco durante a viagem. Além de estabelecer uma empatia, isso aumenta a nossa segurança em todos os aspectos. A Morgana (Kawasaki Nomad 1500cc) tem um porte que nunca passará despercebida. Se tivermos problemas sempre terá alguém a nos ajudar ou a identificar por onde passamos.

 

Três buzinadas e a Morgana atravessa a ponte do Rio Mampituba. A BR 101 que vai de Osório a Curitiba tem nesse trecho abaixo de Florianópolis o batismo tétrico de Estrada da Morte. Traçado superado. Pista simples e extremamente mal conservada. Tráfego intenso e permanente. Atravessa regiões densamente povoadas. Na temporada de férias, acrescentam-se milhares de automóveis e motoristas sem a experiência necessária para dirigir em uma estrada dessa importância e risco, são os motoristas de cidade ou de final de semana. Daí é fundamental termos o nosso equipamento pessoal e a motocicleta sempre nas melhores condições. A sintonia continua na BR 101. Sem forçar ultrapassagens exageradas ou de risco, os caminhoneiros são os primeiros e abrirem espaço para nós. E ao passarmos vem a buzinada curta de agradecimento e resposta. Rapidamente, deixamos para trás, Sombrio, Araranguá, Içara-Criciúma, Tubarão e outras cidades. Do alto do morro vislumbramos a Lagoa do Imaruí, estamos chegando à Laguna.

 

Um braço de aterro e uma ponte servem de travessia. Sempre planejamos a chegada durante o dia. Fim de tarde, mas ainda com pelo menos, uma hora de sol e luz. Cruzamos para o lado oposto da rodovia e estacionamos sob o Hotel. Sempre os funcionários nos recebem muito bem. Todos têm um especial carinho e curiosidade com motociclistas em viagem. Descemos parte da bagagem que é levada ao apartamento no andar superior e de frente para a lagoa. Tomamos um excelente banho. Bermudas. Chinelos. Camisetas. Os funcionários já estão com uma garrafa térmica com água no ponto para o chimarrão.

 

Pela janela, olhamos aquela bola de fogo no céu que parece teimar em não ir para outro local. A maresia da lagoa, fazendo marolas logo abaixo, é como música de relaxamento para nossos ouvidos. Chimarrão feito. Lata de biscoitos. Descemos. Conversamos um pouco com a Morgana e agradecemos a ela e aos nossos anjos protetores. Vamos para a margem da lagoa. Ali sentados, a conversa transcende a quantas vidas passadas? O sol continua pisando no freio e reduzindo a velocidade. Vai cambiando sua moto divina e deixando um rastro vermelho nas águas da lagoa. Ainda levará um tempo para cruzar a serra ao longe. O chimarrão que sempre juntou em torno de si gaúchos de todos os feitios em uma forma ancestral de terapia de grupo, integra-nos mais ainda. As garças flutuam nos céus. Algum biguá busca a derradeira refeição para os filhotes. As marolas continuam a cantar aos nossos ouvidos.

 

Logo os pescadores de camarão estarão singrando a lagoa em todos os sentidos. Ali estão eles… Eretos com o remo de taquara a empurrar a canoa para as armadilhas de camarão. A lagoa é mais um palco iluminado. O sol, por trás, esculpe cenas antológicas. O chimarrão vai terminando e a noite está começando. Os pescadores acendem lanternas em suas canoas. Lentamente a escuridão os envolve e o balé de vaga-lumes humanos coroa aquele formidável momento.

 

Vamos ao restaurante. Além da enorme quantidade de pratos do bufê, estão sempre prontos para uma tainha na brasa. Da nossa mesa temos a dupla visão – a estrada e seu trânsito frenético, com pessoas como cada um de nós com seus amores e destinos a traçar. De outro lado a lagoa e os pescadores, também com seus amores e destinos a traçar. Um jantar dos deuses. Um boa noite à Morgana. O retorno ao apartamento. A sinfonia da lagoa embalará nossa noite. Uma última visão da bandeja de prata já banhada pela deusa da noite, que com seu manto argentado cobre carinhosamente os atores terrestres.

 

Levantamos cedo. Um grande café nos espera. Geralmente há uma grande variedade de pastéis – carne, galinha, siri, queijo, goiabada, camarão e outros sabores por identificar. Todos abastecidos. A bagagem já havia sido reposta na Morgana antes do café. Equipados. Novos adesivos e despedidas. Do estacionamento do hotel saímos pelo Posto Texaco. Uma prece silenciosa ao protetor de todos os motociclistas. Completado o tanque da Morgana e… Estrada. Novos destinos, vencer dificuldades, principalmente nossas, para ter o direito à felicidade!

 

 

 

 

Observação. Lamentavelmente nos últimos tempos o proprietário do hotel e do restaurante da Lagoa tem praticado preços extorsivos e alimentos tipo refugo africano com o equipamento do hotel tornando-se decrépito. Esperamos que as reclamações façam retornar ao mínimo de qualidade e preço justo.

 

Moto - Paixão Eterna - 12 - 2017 - Clint Eastwood

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