Carlinha Cocodrilo, um amor de poupança! Edson Olimpio Oliveira. Crônica 9. Série Moto! Paixão Eterna.

 

CARLINHA COCODRILO,

Um Amor de Poupança!

           

Companheiros, outro dia estávamos a lembrar do Tupinambá. Era um companheiro de estrada que curtiu uma CB400 II, mas que seu coração continuava buscando uma Harley. Não qualquer uma, uma Harley de traseira volumosa. Por esses desencantos que qualquer motociclista pode passar, encostou a moto num fundo de garagem e amarrou uma lona por cima e foi dedicar-se à política. Podia ser pior? Moto por política?

 

Pois o Tupinambá é um desses caras em que o coração sempre falou mais alto. Mesmo na meia idade, a época de curtir as experiências acumuladas com os tropeções da juventude, com sobradas de curvas, com pneus carecas em sintonia com a cabeça, era um apaixonado convicto. Desses que só falta trazer na Carteira Profissional, profissão: apaixonado. E carente. E o apaixonado carente é quase o tipo mais dramático deles – o apaixonado traído é muito pior. Seu despedaçado coração está louco a espera da primeira moçoila que se dispuser a colá-lo.

 

 

Amante do samba, alucinou-se com a Carla Peres, a famosa lourinha do Tchan. Aquilo foi amor à primeira vista. Paixão total. E irracional. Permanente MP3 cravado nas orelhas escutando-lhe. Gravou e assistia ensandecido suas aparições na TV. Babava ao fitar o gingar maroto daquelas cadeiras. Um quadril de mais de 1 metro. Abandonou as reuniões do partido.

— Orçamento participativo do PT uma ova, aquela potranca eu quero só pra mim. – gritava desatinado.

Quando saiu a edição da Playboy, arrematou todo o estoque do jornaleiro. Esse desvario parecia não ter mais fim. Os companheiros calculavam-no doido. Louco varrido. Batendo bielas. Pois até se negava a contribuir com o dízimo para o caixa do partido. Mas continuava impávido a apostar tudo naquela deslumbrante poupança, tal qual o finado (?) Collor que ferrou todo o país e ficou com a poupança só para si e seu séquito.

 

 

Certa noite, após os incontáveis chopes, seus dedos ainda alisando o corpo do copo de loira suada, foi carregado pelos amigos para um sambão na Restinga, bairro da zona sul de Porto Alegre. Ao saracotear do Pagode do Dorinho, ali estava aquela que saiu de seus sonhos: uma loiraça com um mega traseiro. Ao erotismo explícito de seu gingar a galera explodia. Alucinado, subiu ao palco e, como um leão defendendo seu território, acercou-se da criatura. Encarnou mesmo. De fato. E um cara com nome de Tupinambá quando se decide é para valer. A supergata chamava-se Carla Alferes. Sobrenome meio esquisito, mas isso pouco importava. Colocou os demais competidores para escanteio, meio na marra. Mas que outro jeito? A paixão era como um maremoto, arrasava tudo à sua frente. E logo estavam vivendo juntos.

 

A lua de mel durou seis curtos meses. Emagreceu 10 quilos, mas feliz confidenciou aos amigos: — Companheiros, aquilo não é uma bacia, aquilo é uma banheira de hidromassagem.

Mas como a lua tem mais de uma fase e não há mel que sempre dure… Construiu mais um banheiro na sua casa. Aquela poupança maravilhosa devia fazer depósitos num banco dourado somente seu.

 

Afora isso, ela tinha um Probleminha de gases intestinais e era meio solta das pregas. – justificou ao pedreiro e irmão. Mas ele dormia o sono repousante do guerreiro vencedor encaixado nas curvas torneadas pelo Criador e modeladas pelo fio dental. Quando Carlinha acordava e ao bocejar, Tupi tinha um sobressalto pelos gases e pelo hálito, mesmo após esvaziar os alhos da despensa. Levou-a ao melhor dentista. — Reforma total do “piano”, mas vale o investimento. – raciocinava com os olhos grudados nos seus glúteos. Assim descobriu o porquê de seu apelido na Restinga: Carlinha Cocodrilo. Era como o jacaré, ruim de boca, mais com uma enorme cauda… Um rabão de inaugurar toalete no Planalto.

 

Observou que a Carlinha era como candidatos do partido, nível intelectual numa escala de 10, cerca de um e meio. Mas dançava como ninguém. E no aconchego faceiro dos lençóis, nem lhes conto. E, ainda, sua real vocação não era a política. Felizmente, para nós. 

 

Mas o traseiro da Carlinha tinha um pai. Por incrível que possa parecer, mas uma dupla cruel teve trabalho para fazer aquilo. O velho Alferes, chegado num trago, só dava um refresco para o Tupi quando recebia uma grana para ir para a zona brincar com as meninas. Mas a Carlinha também tinha mãe. Se sogra já é algo de duvidoso para ruim, essa era pior. Muito pior. Além de acampar-se na casa do genro, reclamava que só conseguia dormir às 4 horas da madrugada, depois de terminar a gritaria no quarto deles. O assunto só se resolveu quando nosso amigo, mandou-a num pacote turístico (de trabalhadores!) só-de-ida-sem-volta para Cuba. Ainda está por lá, sabe-se infernizando quem.

 

A Carlinha era legal. Tupi ensinou-lhe etiqueta à mesa: — Nunca palite os dentes com a ponta da faca, nunca coce a cabeça com o garfo e jamais faça gargarejo com vinho. – orientava-a. Era boa aluna.  E, infelizmente, a Carlinha tinha um irmão. O apelido da figura, Chaminé. É por aí mesmo: fumegante erva pura. Esse encomodou pouco, está em retiro forçado no albergue do Jacuí. É cadeia mesmo, mermão.

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Mas tudo que balança um dia pode cair. E o jamais imaginado pelo Tupi aconteceu. Foi trágico. Um cataclismo. Estavam se preparando para um longo banho juntos, quando Tupinambá, quase não acreditou no que seus famintos olhos escancaravam: — A Carlinha está de bunda mole, uma gelatina com celulite. – contava aos prantos. Despencou. Era um babado disforme que batia na curva das pernas. E o encanto acabou. Como o minuano, um vento gelado do sul, esfriou-se a relação.  E o Tupinambá caiu de quatro na realidade. O sonho acabara. O motivo de seu amor, da sua paixão alucinada, a poupança da Carlinha, estava irremediavelmente perdida. O cabelo da Carlinha também não era loiro, era pintado até às raízes.

O resto vocês podem imaginar. Cada um para o seu lado.

Os amigos motociclistas, ainda os tinha, mandaram-lhe uma mensagem:

 

 — Tupi! Cai na real e volta para a tua CB 400 II. Moto tem muito mais futuro e mulher…

Moto - Paixão Eterna - 9 - 2017 - Daryl The Walking Dead

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As vastidões do Rio Grande do Sul! Edson Olimpio Oliveira. Crônica 8 – Série Moto! Paixão Eterna.

 

 

 

As vastidões do Rio Grande do Sul.

 

Crônica 8 – Série Moto! Paixão Eterna.

 

Há vários tipos de motociclistas conforme a forma ou o jeito de pilotar a sua máquina. E pelo comportamento e afinidades podem se reunir em grupos, tribos ou motoclubes. Quero tratar de um tipo específico, o motociclista de longos percursos e que prefere a vastidão de estradas e as regiões pelas quais elas atravessam rasgando a epiderme da terra. Absolutamente nada contra o indivíduo que prefere acelerar fundo numa BR 101 congestionada ou fazer uma serra “deitando o cabelo” ou riscando o asfalto com as pedaleiras da moto. São opções. Naturezas diferentes? E a beleza da natureza não está exatamente na sua biodiversidade? Assim é o universo motociclístico. Uma miríade de seres bordando fitas desenroladas no dorso do planeta Terra.

 

 

Imortalizada no cinema a imagem de uma motocicleta varando uma reta sem fim do deserto do Arizona ou de Nevada. Ou também do vaqueiro em seu cavalo sobre o cume de uma colina. Ou como nós aqui no calcanhar do Brasil – o gaúcho solitário e a vastidão do pampa. Aqui, como exemplo, as rodovias da região de Carazinho a Uruguaiana, de Cruz Alta a Ijuí. Ou ainda na região sul do Estado como a região de Pelotas – Arroio Grande/Herval do Sul ou Jaguarão. São Gabriel a Bagé. Alegrete a Livramento. Enfim, tantos percursos. Desde as imensas plantações de soja e trigo dessa fração missioneira aos arrozais do sul. Com o horário de verão, o dia nasce mais cedo para todos. Principalmente para o motociclista que assim terá um dia mais longo para rodar com a sua deusa.

 

 

O odor da manhã. É um frescor todo especial. Aromas que se alternam. Um cheiro de café e a fumaça da chaminé de um fogão a lenha revelando um traço da civilização. Os animais que após passarem a noite reunidos, agrupados pelo espírito de defesa, começam a procurar seus alimentos numa melhor pastagem. São as aves solitárias como os motociclistas ou em bandos. Diminui-se a velocidade para poder apreciar, saborear, curtir odores e imagens que marcarão eternamente o nosso espírito.

 

 

Os quero-queros esticam seus pescoços para verificar quem é esse possível invasor de seu território. Logo adiante está uma lagoa ou um açude tal qual um manto de prata adornando a magnífica cena, sendo um espelho a refletir os raios de uma bola de fogo que rapidamente vai crescendo no céu. O sol vem nos cumprimentar e dizer que nos acompanhará na viagem. O enorme farol da motocicleta pisca para o rei-sol fazendo reverência luminosa. Do alto de uma coxilha e da serrinha de Herval extasiamo-nos com a imensidão dos campos do Rio Grande.

 

Da cabine de um automóvel tu observas a natureza. Numa motocicleta, tu fazes parte dessa natureza. Aqui estão enormes extensões de terra conquistadas e mantidas com os sangues de nossos antepassados. E é como se os campos falassem conosco tentando contar-nos a sua história. Ali adiante uma sanga serpenteia mansa coroada por águas-pé que se esforçam para abrirem suas flores enquanto servem de tapete para aves aquáticas e curiosas galinholas. Numa barranca está uma família de capivaras já buscando se aquecer ao sol. Os filhotes estão aderidos em suas mães. Nossos olhos fotografam o máximo de detalhes. Pensamos nas maravilhas já destruídas pelo maior dos predadores – o homem.

 

 

A estrada, como um imenso tapete desenrolado, mostra-se como o portal que nos levará, motociclistas, a desvendar em cada quilometro um novo mundo!

 

1ª.

CAPITAL EQUIPE

SAGA

"SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU”!

Moto - Paixão Eterna - 8 - 2017 - The Great Escape

A Viagem. Fênix – um retorno à Vida! Crônica 7. Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas.

 

 

A Viagem.

 

Fênix – Um retorno à Vida!

 

Estavam aposentados após uma vida de trabalho duro e contínuo. Quase 60 anos, suas vidas estavam paradas. Objetivo maior – cuidar dos netos e arengar um com o outro para se distraírem. Desiludidos com os políticos. Poupança em baixa. Greve do gás. Só restava o saco… Cheio!  Então numa tarde morna de sábado, ele com o gato no colo e ela enchendo o chimarrão, lembraram de uma crônica da 1ª Capital Equipe – grupo de fantásticos motociclistas. Como se voltassem no tempo, seus olhos se iluminaram. E disse para a esposa que se esforçava para desentupir a bomba do mate:

 

                        — Te lembra do primeiro beijo?

                        — Lembro meu amor!

 

                        Com os olhos fixados em algum lugar do passado, aquela palavra AMOR fazia anos não acariciava seus lábios.  Cerca de 40 anos estavam abraçados no banco de uma BSA que o pai lhe emprestava nos finais de semana. Eram jovens com sonhos e enamorados.  As belas recordações inundaram seus olhos enrugados. A lembrança da moto fê-los navegar de novo no seu leito de amor. A redescoberta da vida e do amor, decidiram comprar uma motocicleta.

 

                        Os dias seguintes sucederam-se frenéticos – contar aos filhos a decisão, somar as contas de poupança, vender alguns bens, fazer exames médicos e solicitar o apoio logístico da 1a. Capital Equipe.  E veio a máquina. Era uma Honda Sahara 1991.  Foi uma festa em Viamão, quase como se a terrinha voltasse a ser a Capital dos gaúchos.  Batizada pelo padre – FÊNIX.

 

                         Família muito religiosa. Os preparativos para a viagem continuavam apesar das opiniões negativistas. Adquiriram roupas de couro, capacetes, viseiras sobressalentes, mapas, bússola, medicamentos de urgência, curso de mecânica, primeiros socorros, e sabe-lá-Deus o que mais.

 

                         Certa noite, a esposa-co-piloto acordou-se. Após tatear a cama procurando seu príncipe-cavaleiro, foi encontrá-lo na garagem dormindo ao lado da Sahara.  Outra feita estavam os dois lavando a FÊNIX com xampu da Mônica e limpando-a com cotonetes.

 

                        E o grande dia finalmente chegou.  O povo aglomerou-se na Praça. Banda Marcial do Colégio Farroupilha. Os jornalistas do Opinião, Correio Rural e A Tribuna disputavam no cotovelaço as últimas entrevistas. Representantes dos CTGs faziam a segurança. Os políticos colocavam-se ao lado do casal para aparecerem nas fotos. Os motoclubes da grande Viamão estavam representados. A criançada corria atrás de balões fujões. Era um delírio geral. Envolvida pela fumaça do foguetório a FÊNIX relampejava suas sinaleiras. 

                     

O ronco do motor dois cilindros era um brado farroupilha Um grito de liberdade.  Desmaios de despedidas.   Tudo pronto.  Derradeira salva de tiros da Brigada, partiram rumo a Torres.  O "nosso" casal foi escoltado pela 1ª Capital Equipe até a divisa de Gravataí. 

 

A FÊNIX voava serena carregando em seu dorso o AMOR, A LIBERDADE e o retorno à VIDA.    

Moto - Paixão Eterna - 7 - 2017 - O Selvagem Marlon Brando

Lili da CB ou a Lili 3 Socos! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série Moto! Paixão Eterna. Crônica 5.

 

Lili da CB ou Lili 3 Socos

Crônica 5. 

 

Existia uma crença de que o motociclismo era um esporte ou uma atividade para homens. Felizmente essa concepção está mudando. Hoje temos uma grande quantidade de mulheres de todas as idades pilotando todo tipo de motocicleta. Isso não foi sempre assim. E uma dessas precursoras foi a Lili. Seu nome de batismo era Iolene, mas adquiriu o apelido de Lili e o ‘sobrenome’ de CB ou 3 Socos por seu batismo de fogo no mundo do motociclismo. E essa singela crônica é um pequeno resgate às mulheres que foram e são esquecidas. Muitos homens se tornaram lendas ou ícones dentro do motociclismo, mas quantas mulheres fazem a nossa lembrança?

 

 

Era uma época em que as motocicletas estavam assumindo seu lugar no Brasil da década de 70. A maioria delas era de pequena cilindrada. A juventude exultava como um enxame de abelhas africanas (ou seriam japonesas?). Pensam que se preocupavam com o tipo de estradas? Que nada! Somente se queriam rodar. O mais possível. O mais longe possível. Foi nessa época que aportou por aqui uma gaúcha acariocada. Explica-se. A gata era gaúcha de nascimento, mas com o falecimento precoce dos pais, foi viver com a avó materna no Rio de Janeiro. A voz era chiada como escapamento original de fábrica. Tinha algum sotaque gaúcho sempre alimentado por uma cuia de chimarrão. Chimarrão bem amargo.

 

mate frio e doce é coisa de fresco. – dizia sempre.

 

Lili veio rodando do Rio numa CB 360 com bagagem e tudo. Sozinha? Não, ela e a moto. A moto já era uma exceção, uma Honda CB 360 duplo escapamento. Cor vinho com filetes pretos e dourados. Amigos grafaram seu nome no tanque. Cromados. Muitos cromados. Era moto de se ajoelhar e agradecer aos anjos poder estar na sua frente e apreciá-la. Muito mais com uma bela mulher de calça jeans, confrontando a beleza de suas formas torneadas com as da moto. Cabelos negros e longos carinhosamente torcidos entre os dedos indicador e médio da mão esquerda para se acomodarem, se aninharem dentro do capacete. Uma loucura ao soltá-los ao vento com um movimento pendular da cabeça. Olhos negros dentro de uns óculos Triumph ingleses refletiam a imensidão do cosmo assim como sua força. A pele morena pelo bulício de Ipanema servia de cenário para lábios da cor de pitanga madura. Como os gomos da pitanga. Com o desejo da pitanga.

 

Enquanto nossos lábios rachavam com o vento, a poeira e o sol, os da Lili se mantinham com a pureza e a beleza das deusas. Era uma mulher à frente de seu tempo. Imagine naquela época uma moça sem sutiã. Ali estava uma. Ao retirar o grosso casaco de couro com franjas, estampava duas sentinelas avançadas, empinadas em sua realeza.

 

 

Havia um problema para nós homens, a Lili não flertava com nenhum. Apesar do imenso ciúme que causava nas outras garotas, seu único gato, namorado e amante era o motociclo. E talvez por isso fosse mais respeitada e admirada.

 

Tratava a todos como irmãos, principalmente como irmãos da mãe motocicleta e irmãos de estrada. A sua paixão pela moto transcendia a tudo o mais. Era um silencio sepulcral ao escutá-la contar suas viagens, aventuras e até acidentes. Lembrando uma queda que teve na serra de Gramado, rasgando a calça Lee. As pernas? Nada que maculasse a perfeição. Enquanto se buscava um contrabandista para fornecer outra, a Lili andava assim mesmo, remendada. Era um verão cearense fora de época que agüentávamos. Aí surgiu a moda dos jeans rasgados e remendados como charme pela outras moças.

 

Implorávamos aos deuses motociclistas que as férias não acabassem e que Lili resolvesse ficar aqui no Rio Grande. Alguns de vocês devem estar se perguntando do porque dos apelidos. Lili da CB é o óbvio. CB era a sua máquina. E Três Socos? Essa é outra história.

 

Aqui em Porto Alegre temos a nossa praia de Ipanema às margens do lago metido a rio (ou vice-versa?) Guaíba. Não tem os atrativos da irmã carioca, mas é muito pretensiosa também. Ali, numa tarde de sábado o pessoal se reunia para falar de moto e cerveja, moto e viagens, moto e mulher e quando faltava outro assunto falava-se somente de moto. E como sempre, tem um cri-cri, um chato e para piorar ainda metido à bacana. Suas piadas enjoavam, principalmente às mulheres.

 

— Todo machão tem duas bolas de gude entre as pernas. – Lili ronronava.

 

Começou a insinuar-se grosseiramente para a Lili, a única mulher sem namorado. Seus amigos cochichavam para que baixasse a bola. Aí é que o falso galo cantava mais alto. A Lili resolveu sair do barzinho ao que a criatura não se conformou e indo à direção da CB ameaçou riscar a moto com seu anel de ouro. O rolo estava formado.

 

 Chegou a turma do deixa disso e quem te pede sou eu. Mas a Lili largou na frente:

 — O dia em que precisar de homem para me defender eu não ando mais de moto!

 

O sacana levou a mão ao seu rosto num gesto de humilhá-la e subjugá-la. Lili abriu com o braço esquerdo retirando sua mão e como  num raio enfiou a bota direita no seu escroto. O animal arrochou num gemido gutural e ajoelhou-se. Até touro que é touro se ajoelha. O cara quis erguer-se esbravejando impropérios de ruborizar dona de bordel. Foi então que Lili deu-lhe um potente soco na boca do estômago seguido de um direto no nariz. O sangue esguichou para todos os lados. E com a fera curvando-se Lili desferiu um gancho de direita no queixo e o cara tombou de costas. Friozinho. Desacordado. A boca cheia de sangue espumava. Socorrido pelos companheiros, custou a acordar. Nocaute mesmo. Aí chegou a Brigada Militar. Todos foram unânimes em explicar que:

 

— O cara tinha bebido demais e caiu de boca no chão quando queria subir na moto’. – dissemos quase em coro.

 

Soubemos depois que perdeu os dois dentes centrais superiores. Para os outros e a polícia ele também deu a mesma versão. Ficaria pior ainda um homem daquele tamanho ser surrado por uma mulher…  Daí seu apelido de 3 Socos.

 

 

Respeitada. Admirada. Invejada. A Lili retornou ao sol e às praias do Rio com o fim do verão. Foi como uma ave de arribação. Uma bela e única ave. Escrevíamos-lhe cartas. Ela nos respondia. Eis que um triste dia veio a notícia – Lili da CB tinha morrido na serra de Teresópolis. Um caminhoneiro bêbado arremessou seu caminhão assassino contra um grupo de motociclistas. Ali também estava Lili. A sua manobra rápida desviou outros colegas da morte.

 

Lembro-me do que dizia: — A moto não é perigosa, o perigo está no piloto e principalmente nos outros.

 

A lembrança de um motociclista está no coração de quem o conheceu e nunca em nomes de ruas ou outras formas.      

 

Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe) www.edsonolimpio.com.br

Moto - Paixão Eterna - 2 - 2017. Motoqueiro Fantasma

A Outra! Edson Olimpio Oliveira. Crônica 4 da Série Moto! Paixão Eterna. 29 setembro 2017.

 

A Outra.

 

                        Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe)

 

             Sempre soube que isso poderia acontecer com qualquer mulher. Me doía na alma saber que alguma de minhas amigas foi traída. Outra vez, ajudei a reconciliar o casamento de minha irmã, pois o cretino do meu cunhado aprontou para ela. Mas isso acontecia sempre da minha porta para fora.

 

O nosso relacionamento sempre foi muito bom. Foi meu primeiro namorado e o meu primeiro homem. Eu jamais quis qualquer outro. Para ele eu entreguei meu corpo, meu coração e até minha alma. E ele sempre me retribuiu. Tivemos filhos. Dois. Com eles me completei como mulher e amadureci como pessoa. Como gente. Mas de uns tempos de para cá, cerca de sete meses, ele estava normal demais. Sabe como é? Muito normal. Pode parecer estranho eu dizer assim. Sei lá se era um sexto ou sétimo sentido. Mas alguma coisa havia. Podia ser somente encucação minha. Ou talvez essa tal de pré-menopausa em que a mulher começa a desconfiar de que já não sendo tão jovem, não possa continuar tendo os mesmos atrativos físicos e encantos para o seu homem. As rugas dos cantos dos olhos sempre me incomodaram e também sinto que a musculatura já não é a mesma.

 

Ele sempre me dizia: — Amor, nós fomos jovens juntos e vamos ficar velhinhos juntos, sempre nos amando e nos acarinhando.

 

Via a insegurança das minhas amigas e, verdade seja dito a maioria já estava no segundo ou terceiro casamentos, ou agora relacionamentos. Até isso mudou de nome e de convicção. Debitava esses sentimentos à minha insegurança. Sempre acreditei que se um homem tivesse outra mulher, o seu desempenho sexual se modificaria. Tanto em qualidade como em quantidade. Mas até por aí estava bom. Bom demais. Ele continuava me procurando como em nossa juventude. E eu por várias vezes, quando ele chegava muito cansado em casa, procurava-o até para testá-lo. E as nossas relações eram fantásticas. Pela manhã eu parava aos pés da cama e olhava nossos lençóis revoltos e aspirava o perfume de nossas marcas de amor. E viajava em minha imaginação até, subitamente, ser acordada de um sobressalto. Como se uma voz lá dentro me dissesse: — ele tem outra. Minha cabeça parecia enlouquecer e muitas lágrimas tempestuosas rolaram de meus olhos. Eu não queria permitir, mas, certamente, deixava transparecer minha angústia.

 

Ele me perguntava o que havia comigo. Eu só respondia: — Nada, Amor, estou cansada do serviço e preocupada com os filhos, sabe como é a escola, as drogas e as más companhias… Então ele me acomodava em seu peito, bem abraçadinha e beijava suavemente meus olhos.

 

                        Tentei largar mão disso. Mas não adiantava. Passei a controlar sua conta de telefone e ligava para seu celular em horários variados e inesperados. Nada. Cheirava e examinava suas roupas. Jamais encontrei marcas de batom ou perfume de mulher. Engraçado, algumas vezes elas estavam com cheiro de gasolina e com manchas de graxa. Ele alegava que era pelo carro que estava dando problemas. Mas nunca deu problema quando eu andava nele! E nem quando as crianças saiam. É assim, a gente continua chamando os filhos de crianças apesar de já estarem moços… E eu sempre afastei deles qualquer dúvida sobre o comportamento de seu pai.

 

As suas viagens a trabalho permaneciam iguais. Iguais demais. Sempre me telefonava da estrada e quando chegava. Mas não me convidava tanto como antes para acompanhá-lo. Dizia que a estrada estava muito perigosa e cansativa e que ficava mais tranqüilo comigo em casa cuidando da família. Mas isso não me convencia e era mais uma ponta de desconfiança. Atirava verde sondando seus amigos. Mas sabe como é homem, um sempre protege o outro. É uma confraria. Se bem que com mulher também não é muito diferente, não é? Telefonava para a portaria dos hotéis, mas eles sempre diziam que ele estava hospedado sozinho. Ou tinha engavetado os caras ou podiam se hospedar em apartamentos separados para não dar na vista…

 

                       

            Comecei a controlar seus extratos de conta e seus cartões de crédito. Então encontrei despesas inexplicáveis. Por mais que ele explicasse, havia gastos extras. Até uma quantia da poupança desapareceu. Ele explicou que tinha feito uma aplicação de risco na bolsa e estava aguardando a melhor hora para sacar. Ficava de mostrar os papéis e sempre esquecia (!?).  Acho que já estava neurótica ou até paranóica. Sei lá. Que barra, meu Deus.

 

Dias que minha cabeça rodopiava. — Estás boiando na maionese? Sacudiu-me minha manicure. — Estou falando contigo a uma meia hora e tu parece estar em outro mundo, – arrematou.

 

Realmente, por muitas vezes eu estava em outro mundo. Um mundo de dor e incerteza. Sabia que aquilo estava destruindo nosso casamento. Minando nossa vida. O desastre estava prestes a acontecer. Eu sabia.  Voltando de uma de suas viagens, fizemos amor no chuveiro e ficamos deitados no tapete por longo tempo. Ele me contando os detalhes da viagem. Eram detalhes demais. Na manhã seguinte, ele, como sempre, saiu para trabalhar e, como sempre, se despediu me beijando e jurando me amar. O que também fazia com freqüência exagerada.  Esqueceu o leva-tudo.  Invadi sua bolsa. Ali encontrei um chaveiro. Um chaveiro com uma única chave e um nome: Morgana. Berrei em prantos de fúria e tristeza. Como se um punhal, antes espetando meu peito, agora o rasgasse e arrancasse meu coração. Enlouqueci. Fiquei desatinada. Quando dei por mim já havia horas passadas.

 

A dor continuava, mas havia se transformado, em parte, na necessidade de flagrá-los. Esgotei as lágrimas. Sentia uma gana remoer minhas entranhas. Precisava planejar algo. Aquele maldito nome, Morgana, latejava em minha cabeça. Agora eu tinha certeza. Eu estava certa. Sempre soube. Como é que ele pode fazer isso comigo? Pensava. Pensava… Um turbilhão de sons e imagens me cegava os sentidos. Imagine só por um momento…  Ponha-se no meu lugar…  E se eu fizesse isso com ele? Não, eu nunca faria isso. Preferiria morrer antes a ter que trair alguém. Ainda mais ele.

 

                        Os dias seguintes foram um inferno. Planejei tudo para o fim de semana. Ele teria de viajar na Sexta. Certamente levaria a maldita consigo. Aí eu pegaria os dois. Eu tinha certeza que se falasse qualquer coisa para ele, ele negaria solenemente com aquela cara de insosso apaixonado. Se estava apaixonado por outra, por que não me disse? Seria muito mais digno e até normal. Deveria ser uma jovem de curvas torneadas e… bumbum rebitadinho. Sempre soube de suas preferências…

 

                         Manhã de Sexta. 9 horas. Pegou a pequena bagagem e saiu no carro. Dei um tempo e segui-o no carro de meu filho. Em vez de ele tomar o rumo da BR, seguiu para outro lado. Parou defronte um bloco residencial. Assim tipo estúdios. Uma garagem embaixo e o apartamento em cima. Típico ninho de casal sem filhos. Como um motel "residencial”… Coisa de doido! Buzinou três vezes. Só podia ser um código. Abriu uma porta menor no portão da garagem e entrou deixando o carro na rua. Fechou o portão. Saí rapidamente de meu carro.  Colei o ouvido ao portão.

 

 Escutei sua voz melosa: — Morgana, meu amor, que saudade que estava de ti. Cada vez mais sinto tua falta. Queria estar contigo todos os dias. Não consigo mais continuar escondendo nosso relacionamento. Quero contar para todos. Vou contar para minha mulher… 

 

Foi aí que eu explodi e berrei a plenos pulmões: — Então conta, desgraçado! Traidor. Bandido! A porta abriu-se, lentamente. Ajoelhada, assisti os raios do sol esgueirarem-se refletindo-se em cromados. Cromados?! Sim, cromados extremamente polidos de uma motocicleta. Onde está a mulher? A desgraçada que me roubou o homem da minha vida? Não havia qualquer mulher em lugar algum.  Com quem ele falava?  Mas então…  Acordei do pesadelo. Ele me arrancou da minha loucura. O chaveiro pertencia a Morgana, a motocicleta. Meu Deus, então Morgana… Morgana era a outra. Em seu tanque de combustível estava pintado seu nome e o meu dentro de um estilizado coração escarlate trespassado pela estrada da vida.

 

 

Por algumas dessas bobagens, eu sempre o impedi de ter sua moto, apesar de sua paixão. Mas ali estávamos nós nos confrontando com nosso destino. Realmente, ela é jovem e bela. Suas curvas são alucinantes. Seus faróis, como olhos cintilantes brilham, lampejam para mim. Ligada, sinto o bater ritmado de seu motor, como nossos corações e o calor que emana de seu interior.

 

 

 

Ele e Ela me convidam a passear. E nós três abraçados, saímos deslizando. Tal qual um bailado com corpos entrelaçados em paixão correspondida. Agora num triângulo. Triângulo não! Um quadrado amoroso perfeito e plenamente consentido e indivisível: Ele, Eu, Morgana, a nossa Motocicleta, e a nossa Vida, agora de volta.

 

 

2017-09-29 – Publicada na Série Moto! Paixão Eterna. Crônica 4

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Moto - Paixão Eterna - 1 - 2017 CHiPs

 

 

Crianças – sobrevivem apesar dos pais! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 25 julho 2017.

 

2017 – 07 – 25 Julho – Crianças – Sobrevivem apesar dos pais – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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Crianças – sobrevivem apesar dos pais!

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ilhares de crianças desaparecem todos os dias no país, atropelam-se números acima de trinta mil infantes. Certamente o número de crianças acidentadas é bem maior, pois não há números que quantifiquem as observações de qualquer serviço de urgência. Causas? Atribuir à falta de sorte, ao azar de pais, responsáveis e cuidadores? Basta uma singela observação no dia a dia e constata-se que a atitude irresponsável dos pais e cuidadores é assustadora. É comum a mídia mostrar uma mãe chorosa lamentando a desgraça de um filho, mas raramente mostra sua conduta de risco que levou ao desfecho de dor e sofrimento. Pais que vivem as suas vidas como se seus filhos não existissem ou fossem responsabilidade de outras pessoas. Assustador! Duvida? Constate em qualquer lugar público, pois no anonimato das casas entre quatro paredes o desleixo dos pais deve ser muito mais significativo em comparação quando até poderiam jogar para a torcida. Ou para inglês ver!

Crônicas & Agudas

Estávamos num restaurante, era sábado ao meio dia, logo com bom público. Um casal com um menino de pouco mais de um ano instalou-se numa mesa, colocado numa cadeira alta de madeira, comum para uso infantil. Tão logo colocam o pequeno na cadeira, o pai vai ao bufê e logo a mãe toma o mesmo caminho. O menino fica impaciente tentando acompanhar os pais com os olhos e com as mãos. Os pais continuam varrendo o bufê sem qualquer olhar de atenção ao seu filho. Demais comensais continuaram suas vidas de cada um na sua. Garçons passam ao largo, pois certamente a criança “não é seu compromisso”. Eis que o menino fica de pé sobre a alta cadeirinha, levanto rapidamente e agarro-o. O menino me recebe com alegria e ali fico aguardando que o pai ou a mãe olhassem para seu filho. Continuaram o trottoir de pratos no bufê e ao balcão de grelhados. O tempo passa e passa. Eis que o pai voltou a sua mesa com uma torre de comida no seu prato, sentou-se e mandou garfo e faca. Agradecimento a um estranho que ali estava cuidando de seu filho? Nunca. Depois de outro longo tempo a mãe voltou com outro prato entulhado de comida. Nenhum deles serviu algum pratinho de comida ao filho. Voltei para tentar continuar o meu almoço, desisti depois dessa conduta dessas duas criaturas. Até são pais geneticamente, mas no mundo prático e real…

Cr & Ag

O que motiva um casal a ter um filho? Quais compromissos estão absolutamente incluídos nessa opção, suas opções? Ou os compromissos e responsabilidades são relativos e eventuais? Os filhos que façam por si ou que surjam pessoas externas que lhes complementem? Muitas pessoas jamais deveriam ter filhos, até a vida dos pets seria cruel com essas criaturas. Não deveriam e não mereceriam ter filhos por suas condutas de risco e de irresponsabilidade. Um menino, como o descrito, caindo do alto daquela cadeira e um possível traumatismo cranioencefálico ou outro trauma com maior ou menor gravidade seria um acidente, incidente, azar, irresponsabilidade do restaurante ou pais que não merecem esse título?

Cr & Ag

Não se espera agradecimento, mas quem não demonstra nenhum tipo de gratidão é uma criatura desprezível. Sempre que o pai ou a mãe daquela criança voltaram para as repetições de comida (para elas somente), jamais se voltaram para a mesa do filho. A criança frequentemente voltava-se para mim com os olhinhos cintilantes e sorria. É a beleza da vida em luz no olhar de uma criança. Uma prece silenciosa para que o seu anjo de guarda conte com ajuda, pois esperar algo dos pais… talvez se a comida não for atrativo principal ou nenhum outro atrativo surja para que o filho que eles colocaram no mundo seja o principal e adequadamente cuidado.

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“Deus e o Diabo na Terra do Sol!” – Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 20 Junho 2017.

 

2017 – 06 – 20 Junho – Deus e o Diabo na Terra do Sol – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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“Deus e o Diabo na Terra do Sol!” – Uma versão atual.

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uando te oferecem algo muito bom, recheado de vantagens, até bom demais, desconfie. É do Diabo, ou do mal, se não agora, é lá adiante. Deus não vem te oferecer mundos e fundos, riqueza, glória ou poder. A música alerta que “quando o santo vê muita esmola na sacola, desconfia”. Deus te oferece desafios, testes para a tua Luz interior se tornar exterior. Deus te pede sacrifícios, disciplina e humildade. Deus pediu que o homem (Abraão) imolasse seu único filho no lugar do cordeiro, livrando-o no último minuto. Foi um teste supremo da sua obediência e da sua fé. Veja Cristo! De menino com propriedades únicas, de adolescente a adulto jovem. Um magrão cabeludo e de barba sedutora. Um cara bonito e cativante, por natureza. E um operário nascido na pobreza duma estrebaria, mas que conquistava pessoas e elas o seguiam. O carpinteiro curava um cego aqui e levantava um morto acolá, fazia vinho da água… Certamente uma tropa de garotas o seguiam e lhe ofereciam as suas habilidades, tal qual as marias-chuteiras. O homem que era deveria experimentar os prazeres da carne pela sua vida. Ele seguia em busca de seu caminho fazendo suas pregações e cativando, mas alguma coisa dentro dele o deixava inseguro da sua jornada de vida.

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Duma feita dando umas bandas pelo Mar da Galileia, não era uma Garopaba no deserto, uma galera que quando escasseava o peixe surfavam nas ondas se afinou com o carpinteiro e lhe seguiram os passos, hábitos e atitudes. As criaturas pediam cada vez mais seu auxílio para um rango legal, enxotar a lepra, se dar bem com Herodes e com os romanos e levantar um money. Aí fizeram um megaencontro com música, peixe e pão que ele multiplicou. E lhe escutaram. Ele também se ouviu e largou aquela galera e foi para a montanha mais alta para curtir uma solidão e pensar na sua vida e o que fazer dela com o monte de opções disponíveis. Lá no topo da montanha bebendo sereno e comendo raiz de arbusto ele meditou e orou. Eis que surgiu uma gata espetacular e altamente sedutora lhe oferendo prazeres dignos de imortais. Ele refugou. Surgiram outros em série lhe oferendo vantagens. Ele recusava. Surgiu uma galera de empreiteiros de pirâmides, jardins suspensos, arenas e lhe ofereceram até um camelo voador e lhe pagariam regiamente as suas pregações em prol deles nas viagens. Recusou. Vieram generais lhe oferendo os maiores e mais poderosos exércitos, imperadores lhe ofereceram reinos riquíssimos. Movimentos sociais e sindicatos gritavam seu nome e sacudiam bandeiras. Recusou. E as noites rolavam sobre os dias. Quando conseguia dormir, rolavam sonhos de poder e de glória pessoal.

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Então veio o Diabo pessoalmente! “Eu era o filho mais inteligente, bonito e amoroso e o Pai me desdenhou pelo meu irmão Miguel. Não me aceitavam por ser bom demais e me expulsaram do Céu e me mandaram para prisão domiciliar no Inferno. Mas não conseguiram me dominar, pois sou mais eu. Ainda fazem campanha contra mim”. Cristo ouvia e raciocinava. O Diabo lhe ofereceu todos os reinos da terra, todo o poder abaixo dele, mulheres mais gostosas e hábeis, enfim o possível e o impossível. Cristo refugou tudo e enxotou o Diabo dali – “Vade Retro!” Em quarenta dias e quarenta noites, Deus não foi lá negociar com o carpinteiro, sequer lhe oferecer um copo d’ água ou um BigMac. Nada! Deixou-o a sua vontade para traçar a sua vida e o seu destino pelo seu livre arbítrio. O íntimo de toda a pessoa sabe o que é certo ou errado, o bem e o mal, o caminho da direita ou da esquerda, a passagem segura pelo mar ou o afogamento pelo poder e pela degradação da moral. E o Pai não interferiu na decisão do Filho.

O carpinteiro que atraía o povo, curava as pessoas, pregava o Amor, a Disciplina e a Humildade e as leis das tábuas de Moisés encontrou-se com Cristo Jesus e o equilíbrio de todos os momentos foi melhor encontrado pelo homem, ou pelo Deus que se fez homem por Amor à humanidade. Daí em diante todo mundo sabe o que rolou. As tentações jamais deixarão de existir e nos assolar para nos conquistar, mas nunca serão coisas de Deus e nossa Luz interior sempre saberá aquilo que nos move e cativa, o Bem ou o Mal.

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