Churrasco de Tonel! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 16 Janeiro 2018.

 

Churrasco de Tonel!

Há quem nos acuse de “desprovidos de imaginação”! Talvez outra ciumeira com a alma gaúcha. O gaúcho encosta uma carne, aproxima umas brasas e lá vai feliz e contente olhando o cavalo e o cão a sua volta enquanto fileteia com a prateada uma costela. Cena antológica da nossa realidade gaudéria e do imaginário. O gaúcho ainda lamenta que o cavalo (pingo) não coma a costela junto com ele e o cusco. Um grande amigo, o doutor Arthur, neurologista da melhor e inigualável estirpe, está treinando seu melhor cavalo para comer… churrasco. Outro grande amigo, o China, vai atestar o feito do doutor. Mas depois desse redemoinho de sentimentos, voltamos ao tonel. Sem desprezo aos assadores de churrasqueira, da tradicional às futuristas com raio laser, aos parrilladores, aos tijolos em cutelo, aos assadores no fogo de chão ou aos espetos encostados no valo ou estribados na taipa de lavoura, enfim, de todos os pelegos e arregos, o tonel ganhou o seu espaço.

Crônicas & Agudas

A ecologia e o reuso traz o velho tonel para ser fatiado ao meio. Ao comprido cabem mais espetos e mais carne. Soldam-se os pés de ferro e monta-se uma arapuca fixa ou de encaixe da ferragem que vai sustentar a alegria carnuda que pingará a graxa no braseiro e o aroma será sentido a léguas de distância. Nosso enviado especial e praiano, o “empoderado” Peru da Festa escalou-se para a reportagem no costado do Quintão. Vai Peru! “Da Kombi e da van escolar do Pereba saltaram os dois times. O time da Polar com oito ex-atletas do fogoso Tamoio viamonense e o time da Skol (vulgo Ferro na Boneca) adernava com as barrigas dos atletas. Da picape do Unha Encravada baixaram as térmicas de cerveja e cachaça e algum refri para os mais desacorçoados da vida. Duas caixas de uva da “colonha” e uns abacaxis de Terra de Areia. Peru no apito! Meia hora de pelada e 8 a 6 pros sem camisa. O pau tava comendo solto, fia da p* virou jura de amor e teve até ameaça de dedo no fiofó do centroavante da Polar, o Rogerinho da Abigail, ali da Tarumã. Cada cinco minutos parada para a ceva e o trago que a gurizada não é de ferro. Não permitiram pro alemão Rexona assar a carne, pois já tava espumando no sovaco. Escalaram um compadre velho do CTG Bagual Descornado para os trâmites legais com o carvão, o sal e a carne. O osso da costela uruguaia já relampeava no sol. O véio Boludo, alcunha da criatura, armou a mesa debaixo do toldo de lona e tirou pra dançar o salsichão, o vazio e o cheio, uns quartos de cordeiro e muita costela. Gorda como a mulher do Magrão do Ó.

Cr & Ag

O jogo terminou por falta de atletas em condições físicas. Uns lesionados até na tramela do joelho, outro no sobrecu, a maioria achou uma perda de tempo com tanta cerveja nas térmicas. Não adiantou a turma do “quem te pede sou eu” e a do “não vamo se mixá pra esses pernas-de-pau”. Anedotas corriam soltas, com uma cláusula pétrea, sem galinhagem com a mulher de amigo presente. Os que não tavam ali, arderam de tanta guampa! E as rodelas de salsichão com farinha de mandioca na gamela passavam rapidamente das mãos às bocas. O véio Boludo corta com as duas mãos e não bebe quando trabalha, depois fica quarando uma semana de ressaca. A lona tava escassa e o lombo queimado, tostado do sol, já cobrava pedágio. Alguém berrou: “Me chama o doutor Edinho do Cabeleira”. O Gardel, meio castelhano de Livramento, deitou-se debaixo da picape até que jogassem uns baldes de água do mar depois do Rogerinho botar os guisados pra fora. Um horror!

O causo vai longe e pra encurtar eu conto que rolou churra e cerveja. A turma já se agendou pra mais uma expedição praiana sem as mulheres de contrapeso e nem de xerife. Nem risco de processo por assédio ou ameaça de cantada. Abraço do Peru! ”

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P12 - Sua escolha, seu voto 2 - 2017

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Patentes Praianas! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 09 Janeiro 2018.

 

“Patentes” praianas!

 

Tradicionalmente no verão gaudério publicamos crônicas infladas de bom humor, trazendo a versão de nossos correspondentes do litoral marítimo do Estado de atraso gaúcho. Sim, os catarinas têm as praias e nós temos litoral. Miltinho Pedalada, laureado atleta da várzea e das areias do Quintão dá sua esticada à Capão sem Canoa e encanta-se com as patentes de fibra plantadas nas praças e à beira mar. O pessoal tradicionalmente ainda se alivia nas dunas ou na água gelada e marrom Nescau. “Eram 14 horas, a turma tinha passado a manhã batendo uma bolinha e derrubando umas cevas geladas, comendo uma costela de tonel e um abacaxi grelhado. O Paulo Cachaça fulminou uma ambrosia de sogra apesar do temor e do berreiro contrário dos amigos e até dos quase inimigos. Foi a ambrosia bater no bucho e se encontrou com a cachaça com paleta de carneiro e deu-se o crime. O carneiro berrou uma, duas e na terceira o Paulo já arriou as bermudas e veio a turma do “deixa disso meu”, “tem crianças perto”, “a gostosa tá te olhando cara”. Fizeram uma rodinha com a bandeira do time Te Arremanga e Vem e o Paulo Cachaça descarregou na lixeira. O cheiro abriu um clarão e a turma do guarda-sol baixou proutras bandas. Até os cachorros que aguardavam os ossos se abriram e pegaram distância.

 

Coisa mui feia e dolorida. O homem se afrouxou e branqueou com ameaça de desmaio e começou a chamar o Hugo com o suor frio da morte. Os colegas que ainda caminhavam pegaram o Cachaça e antes de colocar na Kombi passou uma vermelha dos bombeiros e socorreram o homem. Eu e mais uns dois, que não tavam pelo gargalo, fomos nas patentes de fibra. Uma maravilha de longe. Coloridas como arco íris. Com uma placa indicando Macho e Fêmea. Mas tinha fila. Pensa maior! Bem maior. Pouca patente e muita necessidade. As caras de dor e irritação eram como a petezada aguardando o Sérgio Moro. Horrível meu! Um cara se fez de distraído e quis furar a fila. Levou um rabo de arraia de um anão dobrado e se afrouxou num mata-leão. E se afrouxou tanto que nem precisou mais da patente. Uma velha gorda sentada e arrastava uma cadeira de praia, dessas de cano, e berrava: -“A lei da prioridade pra idosa, fila especial! ”. Numa dessas arrastadas de cadeira, a velha gorda se esparramou no chão e encheu os fundilhos. Coisa de dar dó, tanto que alguns foram acudir e nós assim ganhamos uns seis lugares na bixa.

 

Um magrão pulava duma fila pra outra, sim da fila das mulher pra fila dos machos. Um careca engrossou com aquilo. O magrão colocou uma mãozinha na cintura e a outra com o dedinho indicador no nariz e: -“Olha gente, eu ainda sou virgem e tô meio em dúvida do meu gênero. Tá indefinido, sabem? ” O careca lascou: – “Se pular de galho de novo, vou te fazer descobrir na hora qual o teu gênero coisinha louca”. O magrão até pode ter gostado da ideia, mas resolver sossegar. Como tinha mosca! Tinha umas varejeiras do tamanho de um beija-flor e paravam no ar encarando a gente. Uma baixota com uma criança pelos cabelos saiu com o chinelo dando pancadas nas moscas. As moscas voltaram, elas não. O sol estava de rachar o melão de beduíno no Saara. Fiquei associado no guarda-sol duma idosa muito bem maquiada e apessoada, cheia de colar e pulseira e… gases. Cada soltada! Uma magrinha com esses cachorrinhos de enfeite no colo, não aguentou: – “A tia parece que tá toda podre por dentro”.

 

Eis que atracou uma viatura preto-e-branco da Civil e baixou um negão do tamanho do Chuazenega. Anelão nos dedos. Corrente de um metro no pescoço. E de ouro. Achamos que veio colocar ordem na zorra. Deu outra. “A lei tem preferência”! Olhou pro cara com a revista Veja que era o próximo e uivou entre as presas. O cara provou a sua inteligência e bom senso e gritou, quase um gemido final: – “A lei tem preferência”! Eu, pra evitar conflito de interesse, chamei de meu-bem a Zero Hora que tinha no sovaco e fui achar uma duna. Nasci de parto sem dor, falava minha finada mãezinha e que Deus a tenha, e quando o delegado desceu da viatura, desafivelou o cinto com as pistolas, eu perdi as esperanças”.

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P11 - Metralhas Family - 2016-08

A Gratidão da jovem Médica Marcelle! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 26 Dezembro 2017.

 

A Gratidão da jovem Médica Marcelle!

 

A

 poucos dias comparecemos à cerimônia de formatura em Medicina da Marcelle. Há rotinas e protocolos nas entregas de diplomas e geralmente são similares nas alegrias dos formandos e no júbilo orgulhoso dos pais. Após ocorreu a bela festa da recepção aos seus convidados em salão e local belamente adornados. Dias depois, recebo uma mensagem da jovem médica Marcelle agradecendo a nossa presença e o singelo presente que lhe ofertamos. Você talvez não sinta a grandeza do acontecimento nos moldes que eu senti. Veja! Há uns dias passados, minha secretária recebia um telefonema perguntando-lhe sobre as minhas aptidões ou especialidades e requeria um “especialista” de certa área. Ela indicou-lhe um colega local. Ao fim do telefonema, comentava comigo que esse mesmo colega tem recebido meus pacientes há mais de vinte anos e jamais se dignou a um telefonema ou qualquer mensagem sobre o paciente encaminhado e muito menos como um agradecimento. A soberba e a ausência de gratidão explícita são comuns na Medicina. Sou de uma época em que te apresentavas aos colegas mais velhos do local para abrir um canal de sintonia e respeito.

Crônicas & Agudas

A maioria dos pacientes que encaminho levam uma carta com meu receituário e de próprio punho em letra sempre legível e em envelope pessoal e identificado, um padrão profissional e pessoal. São poucos, senão raros, os colegas que retornam agradecendo a indicação, informando seu diagnóstico e conduta e eventualmente com um telefonema ou uma mensagem. Creio que muitos se sentem gratificados e lisonjeados, até orgulhosos, por serem escolhidos, mas não se manifestam explicitamente. Não é da sua rotina profissional e talvez da sua vida pessoal. Há quem reclame ser o paciente um mal-agradecido. Entendo que o médico deve também ser grato ao paciente que lhe entrega o santuário de seu ser e abre-lhe a sua casa. Demonstrações de gratidão real e desinteressada nos iluminam, fico agradecido e acreditando num mundo melhor. Tive a honra de ser amigo pessoal do Padre Jesuíta Rafael Ignácio Valle, sepultado em Santa Maria, criador da Romaria da Medianeira e contribuído para tornar Nossa Senhora a Padroeira do Rio Grande do Sul – um Homem Santo! O Padre Ignácio me ensinou que nem Roma, no ápice do poder absoluto sobre todos os povos ou no apogeu da devassidão, criou qualquer divindade para a Ingratidão. Creio que nenhum povo primitivo ou evoluído tenha criado o culto à Ingratidão.

Cr & Ag

Que a jovem Médica Marcelle seja a protagonista de uma nova espécie de médicos e de médicas que além do conhecimento científico e da entronização cibernética seja promotora de qualidades humanas que nos iluminem e nos engrandeçam em nossa arte e ofícios sagrados. Há filhos não gratos aos seus pais e reconhecidos a quem caminhou consigo. Há alunos que não respeitam e não levam nenhuma gratidão aos professores em sua vida escolar. Assim roda a existência como se nenhuma conta tivéssemos a acertar e um maligno Gilmar Mendes que os libertassem de seus compromissos e dívidas. Somos seres que precisamos sempre uns dos outros e que necessitamos estabelecer fortes conexões baseadas no respeito mútuo, na disciplina, na humildade e no amor com gratidão. Qualquer criatura que abdicar do seu compromisso com a Gratidão é um ser defeituoso, carente, incompleto e fadado a colher aquilo que ousou e insistiu em plantar. Geralmente esses seres vivem na crença de que o mundo está para lhes servir, a natureza e a vida de todos os seres são para sua utilidade, Deus deve estar de plantão permanente para lhe amparar e sua gratidão é tão seletiva quanto seu interesse. Jamais generalizamos! Continuaremos a exortar a evolução e o entendimento, para mim e para todos, e a prática do louvável e digno.

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Campanha Continuada pelo Voto Consciente e Responsável.

P10 - Metralhas 2

O Negrinho do Altar! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 12 e 19 Dezembro 2017. Especial de Natal.

 

O Negrinho do Altar! – Primeira parte.

O que está olhando Pedro?

– É o altar manhê.

– Presta atenção na missa guri. É pecado se distrair na Igreja.

– Mas o menino… manhê! Olha lá!

– Psiuuuu!

A

 missa terminou e as pessoas se encaminharam para a gigantesca e sólida porta principal que se abre para uma escadaria semicircular e logo desliza para a praça fronteira. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é a segunda igreja mais antiga do Rio Grande do Sul. Nasceu como uma singela capela, que com a fé dos seus fiéis foi crescendo com enormes paredes de quase dois metros soldadas com as conchas do oceano Atlântico distante uns 100 km e amalgamadas com o sangue e o suor dos trabalhadores, possuía magníficos afrescos e altares ricamente adornados. Caminha célere para os seus trezentos anos de vida sendo a testemunha da vida e da morte, hoje sofrendo o descaso e o abandono. Foi o abrigo dos desesperados e dos covardes nas revoluções. Foi palco de importantes líderes e de mesquinhos políticos. Ainda atrai noivos apaixonados em muitos fugazes casamentos e a benção e graça do batismo não recebe a singular e devida importância. O que jamais deixou de ser – a casa da Mãe Celestial, que suas torres lembram braços amorosos aguardando seus filhos amados e que receberão o amor do Filho que carrega em seu colo.

À noite, Pedrinho larga as espigas de milho transformadas em boizinhos com as bolas de gude no assoalho da humilde casa na descida da Lomba do Mendanha e puxando o vestido da mãe entretida mexendo a panela de sopa no velho e fumarento fogão de rabo:

Ô manhê, qué que o negrinho igualzinho a mim fazia com as flores no altar da Nossa Senhora. Maria freou a colher e retirou os olhos da panela de sopa. Sua mente tentava buscar a imagem do menino em alguma cena.

Que negrinho? Não vi nenhum negrinho no altar. E nunca tem muito negrinho como tu ou eu.

Ele tava com um balde de flores colocando no altar quando chegamos e ali ficou depois ajoelhado na missa. O padre passou do lado dele quando foi fazer o sermão e…

Logo todos estavam se deliciando com a sopa quente sem se preocupar com as lambidas do vento Minuano varando as frestas da parede de tábuas carcomidas.

 

Manhã de sábado A idosa mulher abre a bolsa surrada e saca um antigo relógio de bolso que pertencera ao seu pai e antes dele ao seu avô. Olha para irmã e diz: – Quase 8 horas. O negrinho aprontou o altar da Nossa Senhora. Ele trocou as toalhas e colocou umas flores tão bonitas quanto cheirosas. O perfume vem até nós. Sinta mana, – fechando as pálpebras numa respiração profunda. A irmã elevou lentamente os olhos marejados de lágrimas, levou o alvo lenço e assoou delicadamente o nariz. Arrumou o rosário enrolado na mão esquerda e seu olhar caminhou pelos altares e cochichou:

Que perfume maravilhoso. Lembra as flores da casa da mamãe em dias de festa ou quando ela trazia suas flores do jardim. Quem é esse negrinho? Nunca vi ele antes aqui na igreja. De quem será filho? Por que ele está de pés descalços? Será algum coroinha novo do padre? Notou se ele subiu no altar, mas tem flores tão lindas até lá em cima. Seu olhar acomodou-se no topo do altar de vários metros de altura e voltou às suas orações arrumando o véu sobre os cabelos. E logo a igreja recebia o povo e o padre entrava com seus sacristãos em solene ladainha para a esperada missa de Finados. – Nota: Leia a parte final na próxima semana.

2017 – 12 – 12 Dezembro – O Negrinho do Altar – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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O Negrinho do Altar! – 2ª. Parte. Conclusão.

O

s jovens pais sorriam da enorme felicidade de ali estar com a filha tão amada e desejada estreitada amorosamente em seus braços. Fora a primeira gravidez daquela jovem mãe. Sofrera muito com dores e sangramentos. Família humilde da Lomba da Tarumã. Sua casinha, aos fundos da casa paterna, beirava o local sagrado das ancestrais trincheiras farroupilhas. Ali naquela terra outrora tinta de sangue tombaram pessoas pelo aço e pelo fogo de irmãos contra irmãos na Guerra dos Farrapos. Pela vidraça da janela ao lado da sua cama, os dias troteavam de marcha arrastada e sofrida e seus olhos encovados e densos imaginavam o filho, que carregava dentro de si, brincando com outras crianças em efusiva alegria. Assim se nutria das forças da alma pelo amor alimentando o corpo fragilizado pela difícil gestação. Certo dia, o ventre latejando de dor, o suor pegajoso vertendo de sua fronte e rolando pelo seu corpo magro, as mãos crispadas no velho cobertor de lã, e o campinho vazio das crianças da vizinhança. Dia invernoso, nuvens plúmbeas engalfinhavam-se numa luta pelo melhor campo do céu. Eis que um negrinho de pés descalços e calças curtas, extremamente brancas como alvejadas e quaradas no anil em algum gramado, arrumou o suspensório e veio até sua janela.

Tereza empurrou a janela pela corrediça de madeira. A luz dos olhos do menino penetrava nos seus e como se entrasse em seu corpo e no seu espírito O negrinho lhe sorriu e uma rosa branca surgiu em suas mãos. O perfume lhe fez fechar os olhos alguns instantes para absorver profundamente a sensação de paz e alívio. Sua barriga acalmou-se e sentia como se seu bebê recebesse o carinho do negrinho. O menino sorria em silêncio. Não respondeu suas perguntas. Virou-se para o banco ao lado da cama, ali dormiu um pedaço de bolo com abacaxi que tanto adorava e seu mãe lhe deixou com afeto antes de sair para suas faxinas no centro da vila. Ao voltar-se à janela, o menino sumira. Não sentia angústia ou dor, sentia uma imensa necessidade de ajoelhar-se e orar para a Padroeira, Nossa Senhora da Conceição. Ainda temendo sangrar saiu do leito e ajoelhou-se e orou e prometeu. A promessa seria cumprida durante toda a sua vida e começaria no batizado de Maria. Sim, ela receberia o nome da Mãe de Jesus Cristo!

Os padrinhos e avós abraçavam-se e à Maria. O padre cumpria o solene ritual. Eis que Tereza saiu rapidamente da sua posição na pia batismal e indo ao altar da santa dobrou-se como num abraço. O espanto geral interrompeu a cerimônia. Voltou com os olhos vertendo as lágrimas de felicidade que somente uma mãe amorosa pode verter. Ao fim do batismo, perguntaram-lhe por que fizera aquilo – “é pecado interromper o batismo, o padre não deve ter gostado”, – disseram-lhe. Tereza sorriu e disse-lhes: – O negrinho que lhes contei estava com um balde de flores no altar de Nossa Senhora e meu coração precisava agradecer. Fui e lhe dei um abraço e quando olhei pra cima acho que Nossa Senhora sorriu.

 

Lendas são as histórias que não vivenciamos ou insistimos em desacreditar. Da fé nascem milagres. Do amor nascem e multiplicam-se os milagres. Olhamos e não enxergamos. Se enxergarmos, tendemos a duvidar ou simplesmente deixar no acostamento da estrada da existência. Raros ousam contar aquilo que somente eles experimentaram pelo risco de serem considerados loucos ou mentirosos. Buscamos explicar e racionalizar. A dor e o sofrimento tende a nos fazer mais humildes e ansiar por ajuda. Quantas vezes a ajuda passa ou está ao nosso lado e não a utilizamos ou a negamos. Quando vemos ou sentimos algo que os outros não sentem ou não vêm, optamos pelo silêncio temeroso. Um negrinho! Um menino negro visto por sabe-se lá quantos numa igreja centenária. Um negrinho humilde de calças brancas e curtas, muitas vezes, de suspensório com a faina de adornar o altar de Nossa Senhora e que visita pessoas no extremo do sofrimento e lhe traz conforto. Alguns sentem um perfume divino no altar hoje desnudo e quase abandonado, mas poucos sabem ou se apercebem que há algo de luminoso ali. Aparições são visualizações somente para alguns encampados pela dor ou abençoados pelo privilégio. Os padres se multiplicaram no tropel dos decênios e viram ou também silenciaram.

Os anjos existem e nos acompanham. Um negrinho pleno de amor é um desses anjos que acompanha e vela pela Mãe de Cristo e ilumina e perfuma, além do altar da Virgem, até corações e espíritos empedernidos quando se abrem para a humildade e para o amor divino.

2017 – 12 – 19 Dezembro – O Negrinho do Altar – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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12 - Natal 2018

12 - Natal AD 76 - 2017

À ponta de faca! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 28 Novembro 2017.

 

À ponta de faca!

 

A expressão também pode ser vertida como “à ponta de adaga como uma das formas da sabedoria popular nos ensinar algo. Desdobremos em outra: “na marra”! Quer outra ainda que se arrasta pelo leito pegajoso para uns e natural para outros: “está no meu direito”! Há também nos Livros Sagrados os ensinamentos sobre não abusar das exigências de quem tem o poder ou está “com a faca e o queijo nas mãos” (o rei). No entanto, tantas vezes alguém confronta ou atropela quem tem o poder de decisão querendo para si algo que até pode ser justo, mas não é razoável da forma como é requerido. Jamais alguém gostará de ceder a alguma pretensão de outrem “com a faca no pescoço”. Em certas circunstâncias até se verá coagido ou obrigado a atender aquela exigência, mas a dano estará gravado no sangue vertido, mesmo que virtualmente.

Crônicas & Agudas

Creio que em Neemias, na Bíblia, estão assim esses ensinamentos. Leia ou consulte com seu mentor espiritual ou religioso. “Comer pela beirada” faz parte desse processo de convencimento e conquista. Até nos relacionamentos. “Tu tens que gostar de mim e vir pra mim porque eu sou o tal e tu precisa de mim e daquilo que posso te oferecer” – ruim começar um relacionamento assim. “Tu vais fazer sexo comigo, pois é meu direito e a tua obrigação”! – Donde ser primitivo? O processo de convencimento e de conquista deve ser gradual e que pontes sejam estabelecidas e reafirmadas a todo tempo e permanentemente. Na atividade profissional não é muito diferente. A criatura pode ser um ótimo funcionário, correto, ativo, disponível e eficiente e agora no final de ano precisa de um aumento de salário. Imagine-o atropelando seu diretor ou seu chefe ou o dono da empresa. Caso ele seja excepcional, vai conseguir algo pela conjuntura de final de ano, mas logo passado esse período o pontaço de adaga vai resultar na sua demissão.

Cr & Ag

A conjuntura deixada no país por Lula e Dilma e continuada por Temer e a escória escolhida a voto ou não é avivada pelos sindicatos e a manutenção da “luta de classes” e o estímulo à desgraça. “O patrão é rico e tem que me pagar”! Esse tem “que me pagar” pode embutir tudo que ele amealhou sendo sangrado continuamente pelos maiores impostos do planeta e a maior corrupção já identificada no mundo ocidental e que aquele ex-presidente “não sabia de nada”. Isso serve para setores ou segmentos do funcionalismo público que acreditam que o patrão é o prefeito ou o governador de plantão e jamais quem realmente paga a conta ao custo de seus impostos e da extorsão feroz que os cidadãos normais sofrem – da multa de trânsito ao imposto na comida e no remédio.

Cr & Ag

Muitos acreditam e outros querem iludir o cidadão para que abracem a sua causa. No entanto a qualidade dos seus serviços, como segmento da sociedade e jamais individualmente, é deplorável e os resultados são serviços de má ou péssima qualidade que não melhoram na razão do aumento de seus ganhos. Eles não sabem, não entendem ou querem negar que nenhum governante é dono do dinheiro do povo e o dinheiro do povo deve ser retribuído em serviços de boa qualidade e anualmente melhorando – acontece o contrário infelizmente! Se você está em disputa por emprego ou de se manter no seu emprego, pense como sendo o dono do negócio. Pense como aquele profissional liberal que se não tiver clientes, afundará e não colocará a comida na mesa de sua família e depende da sua capacidade de gerar resultados satisfatórios ou necessários ao seu chefe e cliente. Reflitamos onde estamos ou nos mais de 15 milhões de desempregados do Brasil!

2017 – 11 – 28 Novembro – À ponta de faca – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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P8 - Galo-Gato - 2016

8 de Dezembro! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 21 Novembro 2017.

 

8 de Dezembro!

 

Aguardava o Natal e a Páscoa com aquele sentimento um pouco interesseiro, pois tinha sido um “bom guri, bem educado, estudava e não faltava as aulas do Grupo Escolar Setembrina, não dizia nomes feios e obedecia aos pais e jamais respondia ou tratava mal aos mais velhos”, logo “eu deveria” ganhar algum presente nessas datas. Mas outra data falava bem alto no meu repertório de eventos importantes e esse era o dia 8 de dezembro. Sempre um grande feriado em Viamão City e uma festa que durava dois finais de semana, mais de dez dias. A praça da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira e mãe católica da nossa fé, tornava-se um palco iluminado, não somente pelas incontáveis lâmpadas coloridas estendidas em vários postes, como pela presença constante de parques de diversões com muitos brinquedos que iam da roda-gigante, passando pelo chapéu-mexicano, carrossel, tiro ao alvo, música de alto falantes com solicitações, missas diárias e procissão. E muito muito mais!

Crônicas & Agudas

Não tínhamos os pilas necessários para experimentar tantos brinquedos, mas havia um algo mais que sempre nos atiçava e iluminava mais vivamente. As gurias das escolas, todas as gurias da cidade, iam passear e namorar na festa. Certamente Nossa Senhora nos olhava acuradamente do seu altar ricamente adornado com flores, muitas flores, toalhas de um branco tão branco como a alma dos anjos e seu amor pela humanidade. Os guris circulavam acompanhados de outros amigos para estimular a coragem de olhar e piscar um olho, dizer um “que tal” ou até ensaiar uma conversa sobre  “a escola” ou “será que vai chover”. As gurias com os braços enfiados umas nas outras riam. Riam muito e mais difícil era encontrar algum lugar para as mãos inquietas. As coisas não evoluíam muito mais que isso geralmente. Os olhos cansavam de tanto piscar, mas havia outra técnica esmerada de aproximação e demonstração de “to afim” – barracas vendiam bolas de serragem enroladas em papel celofane de várias cores, em gomos como bergamota, presas por um elástico que eram arremessadas nas costas das criaturas.

Cr & Ag

Equimoses ilustravam e listravam o “lombo das gurias”. Isso deveria ser algum resquício neandertal do macho nocautear a fêmea e arrastá-la pelos cabelos para sua caverna. Mas havia técnicas mais evoluídas, como solicitar ao serviço de alto-falantes uma “página musical com todo amor e carinho para aquela guria de vestido vermelho com uma fita branca nos cabelos, quem lhe dedica com respeito é seu admirador sentado na escadaria da igreja”. Também havia um pega-ratão de alguém dedicar algo para a pretendida de um amigo e sem que ele soubesse e marcar um encontro. Isso complicava a vida do outro caso ela tivesse algum irmão bom de briga. Havia quem caminhasse a procissão descalço para conseguir uma graça da santa – saúde, emprego ou até um casamento. Nós não entendíamos essa do “casamento”, além do mais esse era um esquema do Santo Antônio.

Cr & Ag

Nostalgia? Cada época com seus encantos e graça. Há que comparar e recordar com saudade de sair-se de casa com a certeza de que voltaria e os pais ficavam descansados com seus filhos se divertindo sadiamente. Essas festas desapareceram e talvez jamais retornem. Hoje o 8 de dezembro também é o Dia da Justiça. Sente-se que o cidadão honesto do Brasil tem vergonha de comemorar essa data no dia a dia de sua vida e de seu trabalho. Jamais generalizamos, mas lamentavelmente o espírito de corpo do judiciário protege e imuniza os que jamais deveriam representar a justiça e para muitos resta somente orar.

2017 – 11 – 21 Novembro – 8 de Dezembro – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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P7 - Eleições - tua cidade, tua casa - 2016-08

Reinventar-se! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 14 Novembro 2017.

 

Reinventar-se!

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Seria a morte uma reinvenção da vida? Em diversas épocas ancestrais e agora nas pulsações do século XXI, seres de todos os horizontes acreditam que haja alguma coisa a mais depois do homem fechar os olhos, o coração parar de tamborilar em seu peito e seu cérebro se desligar. “Quem foi não voltou para contar”! Escuta-se amiúde numa tentativa vã de encurtar o trajeto e de sufocar os erros de uma existência pela possibilidade de haver um tribunal em outra existência ou num outro patamar existencial em que os crimes não terão a safadeza interpretativa, juízes de conduta nebulosa, instâncias mais eternas que a existência, nem a prescrição. O mais magnífico ser humano que já caminhou nesse planeta hostil nos mostrou que a morte é uma passagem para algo mais. Melhor ou pior? Até o criminoso crucificado ao seu lado acreditou que há “melhor”.

Crônicas & Agudas

Empresas destroçadas por calamidades de seus administradores ou de outra ordem podem ser recuperadas e voltarem a produzir bens úteis para a humanidade. Há pessoas especializadas nessa chamada reengenharia. Alguns fazem a empresa voltar a viver e prosperar para logo adiante repassá-la e assim seguirem em novos desafios. Ideologias, como o comunismo, pregam o Estado renascido das cinzas e para tanto se for necessário o extermínio físico de milhões de seres humanos, isso faz parte do seu projeto de dominação e perpetuação. Calcula-se em 40 a 60 milhões de seres humanos exterminados pelo regime e ideologia socialista-comunista na Rússia e comemorado (?) o centenário esse ano.

Cr & Ag

As catástrofes naturais são ensinamentos que a natureza nos oferece para nos aproximarmos de um equilíbrio e de respeitá-la como essencial à continuação do homem sobre a Terra. Um flagelado que chora e lamenta “que há mais de 30 anos eu moro aqui e esse rio inunda a minha casa e…” Somos sempre solidários com a dor e o infortúnio, mas essa criatura chegou e o rio ali já estava. Com frequência as águas do rio se elevam, assim desde o começo dos tempos e atingem até certas marcas. Infelizmente sua mente ainda não reinventou outra forma de viver numa casa com sua família sem que o rio lhe afete demais. Assim são para os incontáveis fenômenos naturais em que as pessoas não se adaptam e resistem num sofrimento repetido.

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São tantas as oportunidades de nos reinventarmos que transitam pela troca ou perda do emprego, mudança de região ou país, novos relacionamentos ou aperfeiçoando os antigos, mudar condutas de risco para a pessoa e para os outros, ter disciplina honesta e trabalho luminoso. Sim! Você citará dezenas de outras possibilidades, arguto e-leitor. Há uma máxima do gauchismo: – “Dar soco em faca de ponta”! Traduz a constância de persistir no erro e perpetuar o absurdo. Partidos políticos inundados pela descoberta da ladroagem, da rapinagem, da roubalheira desenfreada e desmascarada insistem em se manter na idolatria funesta e carregam de roldão os destinos de tantos – desconhecem e renegam a reinvenção. Seria a morte a derradeira oportunidade daquele espírito empedernido e refratário ao amor, ao bem e à humildade em reinventar-se?

Livros!

A Arte da Palavra” – coletânea que marca o nascimento de escritora da advogada Dra. Bernadete Kurtz com concorrida sessão de autógrafos na Feira do Livro.

2017 – 11 – 14 – Reinventar-se – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

www.edsonolimpio.com.br

P6 - Eleições - seu voto - sua voz - 2016-08

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