O Amor do seu Aldo Cabeleira. Meu Sangue é Vermelho; Meu Coração é Colorado. Histórias do Internacional. Medalha de Prata no Concurso Cultural do S.C. Internacional–FECI. 2017.

 

Histórias do Internacional

O Amor do seu Aldo Cabeleira!

Meu Sangue é Vermelho. Meu Coração é Colorado!

Por Tainha Jordans (Pseudônimo)

 

Acredito que em 1917, ano em que nasceu seu Aldo Cabeleira, o Colorado era ainda um garoto de futuro incerto que aos oito anos de idade lutava pela sua sobrevivência embalado pelo amor de seus fundadores e acalentado pelos torcedores do Povo que fluíam a sua volta. Foi no fundão da denominada Estância Grande, na zona rural de Viamão, penúltimo filho da dona Celina e do seu Olympio Carneiro, apelido que quase virou sobrenome, numa família em que mais de uma dezena de irmãos “nenhum degenerou, são todos Colorados”. Eu nasci no ano de 1951, também em Viamão, e assim começamos uma cavalgada de lutas e de inúmeras emoções, eu sempre na sua garupa nos campos em que o Colorado peleava.

Estou numa fotografia no colo de atletas com o time do Internacional que visitavam Viamão, trazidos por ele, como fez em várias outras vezes. Eu tinha algo como dois a três anos de idade. O casamento do seu Aldo Cabeleira com o Internacional foi anterior ao casamento com minha mãe Dora, mas nenhum ciúme irritava seu coração pois ela também o acompanhava no mesmo e intenso sentimento. Seu Aldo recitava em verso e prosa escalações não somente do Rolo Compressor, mas outros grandes times daquele clube que albergava em seu coração todo um universo de pessoas de todos os credos, gente de toda cor, criaturas das mais humildes aos mais abastados. Ele se orgulhava profundamente de estar no Time do Povo do Rio Grande do Sul e ali estar em casa, numa casa que não distinguia e separava seus filhos.

Talvez em 1954 tenha-se sentido um pouco em paz para aquele outro Campeão do Estado gaúcho. O time do Renner sagrou-se Campeão e ele ganhava o sustento para si e sua família ali nas Indústrias Renner, onde trabalhou quase quarenta anos, somente parando a atividade quando a doença venceu o corpo do guerreiro. No entanto, jamais vencerá à alma que sempre foi e será nos campos de Luz celestiais uma Alma Colorada e lá estará com seus ídolos e amigos. Minha mãe Dora o acompanhava aos jogos até que numa noite de intenso calor o Inter jogava com o Botafogo do Rio de Janeiro (creio) no glorioso Estádio dos Eucaliptos. Estádio mais que lotado. Torcida em ebulição. Partida acirrada. Eis que a torcida explode com os gritos de que “a arquibancada estava desabando” e as pessoas se jogam para dentro do campo. Derrubam-se os alambrados de tela. A partida se interrompe com a massa humana em desespero. Pessoas sendo pisoteadas. Dezenas de feridos. Minha mãe amada sempre recordava que “quando tudo cessou, estava dentro do gramado, comigo entre as pernas, deitada” e muito machucada. Eu, criança pequena, sem nenhum arranhão. Seu Aldo também bastante machucado ajudou a nos proteger com seu corpo sólido. Fora um alarme falso de uma pilha enorme de engradados de bebidas que havia desabado sob a arquibancada e o eco, o estrondo motivou o berro inicial de desespero de algum torcedor. Dona Dora agradecia sempre as suas protetoras, Santa Terezinha e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viamão. Durante sua curta vida não retornou mais aos campos de futebol, mas o rádio estava sempre ligado e girando o dial buscando os derradeiros comentários e informações do Colorado.

A característica do rádio ligado no Colorado foi e é de nosso sangue vermelho. Quando surgiram os primeiros rádios de pilha, meu pai me presenteou com um da marca Marvel que durante muito tempo gastou-se nas minhas orelhas. Lembro-me ainda um moleque estarmos na fila esperando o Estádio dos Eucaliptos abrir seu portão, rádio ao ouvido e deliciando-me com um pastel de balaio e um guaraná gelado e o seu Aldo apontando-me os dirigentes e antigos jogadores que ali circulavam.

O Internacional alçava novos e grandiosos voos. E um projeto “impossível” foi lançado – um novo estádio de futebol. Um gigantesco estádio de futebol. Muitos tripudiavam ser delírios do povo pobre e ainda mais num lugar que somente havia… água. “Um estádio de futebol dentro de um rio, do rio Guaíba”. Talvez esse povo sofrido tenha sonhado com algo como a terra prometida dos hebreus e um Moisés abrindo as águas para seu povo. Ninguém duvidaria da Bíblia, mas do sonho Colorado… E seu Aldo fez a sua parte, aquilo que lhe era possível dentro do necessário. Lembro de uma imagem que ele tinha em casa – “A bóia cativa”. E as dragas trabalharam e a terra em montes afastando as águas do rio. As campanhas se multiplicavam e quanto maior a dificuldade, mais a solidariedade aproximava, reunia e avolumavam-se as forças Coloradas. Assisti todos os jogos do amado Colorado durante os dois primeiros Robertões no estádio Olímpico, seguindo os caminhos que o seu Aldo me ensinara viajando nos ônibus de Viamão e nas longas caminhadas gastando o tênis.

Ele sempre foi Sócio e mostrava sua carteirinha com alegria, mas agora dera o maior salto – adquirira duas cadeiras perpétuas e remidas “dentro de um rio”. Logo o rio deu espaço ao concreto e o gigante crescia e jamais o por do sol mais belo seria o mesmo. Seria muito mais belo! E glorioso. Caminhávamos durante a construção entre colunas e ferros. Levou-me para ver os canos de drenagem que estavam sendo colocados onde logo seria o gramado, e “nenhuma enchente como a de 41 vai nos alagar”! E um dia subimos as rampas e sentamos para admirar e cair numa realidade plena de amor. E como sempre ele apontava e mostrava – “aquele é o doutor Tedesco”. Craques e ídolos cruzavam conosco e Larry (Pinto de Faria) era uma dessas pessoas de amor e carinho sem par, entre outras.

Jamais assisti ou soube do seu Aldo “tocar flauta” ou desmerecer de qualquer forma outro time de futebol. “Se não falo pro bem, nunca vou falar pro mal”! – dizia com a convicção dos justos. E lá estávamos nós na inauguração do Gigante da Beira Rio. Torcendo. Vibrando. Chorando e rindo. Agradecendo aos homens de brio que lideraram uma caminhada grandiosa que começara no distante ano de 1909 e aos que tornaram possível o “impossível”. A primeira vez que o Hino Nacional, o Hino Riograndense e o amado Hino Colorado ecoaram nas vozes e nos corações do povo dentro do Gigante! E certamente nos campos de Luz com anjos que aqui nos trouxeram. Gratidão! E lá nas Cadeiras Perpétuas ele me mostrava – “aquele é o doutor Ephraim (Pinheiro Cabral), aquele é o doutor Balvé (Arnaldo)” e assim puxava seus feitos, como dos nossos craques e deliciosas histórias ele recordava. Creio que se sentia mais que um privilegiado, um humilde trabalhador e eterno torcedor estar ali no local mais nobre, junto à Tribuna de Honra” do templo Colorado. Como um pescador no Olimpo? Dona Dora, com o seu rádio de plantão, vibrava e torcia e nos aguardava na outra casa depois de cada jogo no Gigante.

Quando a Cledi se tornou a primeira namorada oficial e titular, hoje esposa, o seu Aldo lutou e buscou uma cadeira locada para si e para que a Cledi me acompanhasse aos jogos. Juntos! Em algum recanto de seu espírito estaria plantando uma semente de que viesse um neto que continuasse a sua “senda de vitórias”. E o neto foi nosso primeiro filho, o Duda (Eduardo) que se tornou seu companheiro de todas as jornadas. Nessa época um deputado federal de origem indígena, o Juruna, era tema na mídia. O cabelo do neto Duda “parecia com o do Juruna” e lá ia o seu Aldo Cabeleira e o neto Duda Juruninha tomar o ônibus para os jogos do Inter. Inverno ou verão, noites ou dias, o neto ia “acampar com o avô” no Beira Rio. Sempre foi costume do seu Aldo levar “um fiambre” para comer enquanto os portões não abriam.

A roda da vida ou uma roda viva nos conduz por caminhos que somente o Criador conhece. O seu Aldo teve que se desfazer de suas cadeiras e outros bens por “algo maior” – pagar meus estudos, logo nos dois anos iniciais da década de 1970. Mesmo por pouco tempo, ajudou seu clube e deliciou-se com seus encantos. Jamais se afastou do nosso Colorado. Depois do falecimento da minha mãe Dora, constituiu outra família e outros filhos, mas sempre indo aos jogos, sempre ao nosso templo mais sagrado. E depois no Parque Gigante, outro sonho realizado no Inter. E ao final da década de 1980 a doença tornava sua batalha pela vida uma epopeia. Nos leitos de hospital, nas internações de UTI vertia uma lágrima silenciosa ao escutar as notícias das vitórias do amado Colorado. E quando alguma voz vertia de sua garganta, vinha “a saudade do guaraná com pastel” e o grito pelo Inter. As enfermidades podem vencer aos homens e obrigá-los a cruzar o portal da morte, jamais sepultam seus sonhos, seus amores e as sementes que plantaram.

Na minha infância, havia dois negros muito humildes em Viamão. Irmãos e engraxates – Biúda e Saravá. Pessoas de amor na dureza de sua existência e que também tinham o rádio de pilha como fiel parceiro. Minha mãe e hoje a esposa ainda usam a mesma expressão, as mesmas palavras, a mesma frase: – “Não desliga o rádio enquanto não ouve o comentário do Biúda”! Tropeamos as estações com a facilidade de captação do som, até o “Biúda ou o Saravá darem a última palavra”. Os mesmos caminhos da vida nos atrelaram ao rádio e à TV. Outro ano fomos assistir à Juventude e Inter e agora neste 2017 da Graça, assistimos Criciúma e Internacional, sempre na casa do co-irmão. Um projeto estava emergindo dentro de nós, não com a grandiosidade do Gigante que nasceu das águas, mas voltar ao Beira Rio nas cadeiras que o seu Aldo Cabeleira sonhou e realizou. Uma homenagem de quem foi e sempre será um gigante com sua mais fiel companheira em nossas vidas – retornar! E adquirimos duas cadeiras no mesmo espaço sagrado, as Perpétuas. E nosso amado filho Duda e nosso neto Lucas, bisneto, estarão torcendo, vibrando e amando numa saga de Luz e Amor ao Sangue Vermelho e Coração Colorado. Dona Dora e seu Aldo estão felizes que finalmente após um logo tempo estarão retornando e renovando votos de Amor ao Colorado.

Estarei exatamente com 66 anos de idade no dia 23 de junho de 2017 e eu como tantos Colorados temos histórias para contar. Lições de vida para outras vidas. E lembro que certa vez assisti a um filme sobre um homem da Nova Zelândia que sonhara escalar o Everest, a mais alta montanha do planeta. Diziam ser um sonho impossível, pois sua condição simples, até humilde, jamais permitiria ousar tal empreendimento. Ele perseverou, planejou, abdicou daquilo que é importante para tantos e vencendo cada passo das incontáveis dificuldades, ele atingiu ao topo do mundo. Jamais fez isso para seu engrandecimento ou por alguma glória almejada, mas fez pela sua alma imortal e pelo seu amor à vida. E novamente retornou à montanha. Em 2006 estávamos no Beira Rio, meu filho e eu e um casal de amigos próximos. E milhares de outros amigos próximos de nossos corações. E o Internacional retornou do Japão fazendo novamente o “impossível”.

Este é um ano de 2017 traz dor e sofrimento, desilusão e até revoltas, e principalmente devemos ter entendimento para aprender com as dificuldades, valorizar aquilo que conquistamos e temos e jamais desistir de nossos sonhos. E lutar para o retorno. Seu Aldo Cabeleira, pai-avô-bisavô, estará retornando às suas cadeiras no Beira Rio junto com cada um de nós que tanto lhe amamos e minha mãe estará ainda com o rádio sempre ligado no Colorado até o derradeiro comentário do saudoso Biúda. E ali o nosso sangue vermelho e o nosso coração colorado terão mais Luz!

—————————————————————

Observação: Recebi ontem dia 16 de Junho a mensagem de que o texto em homenagem ao meu pai Aldo Flores de Oliveira, o Cabeleira, tinha sido distinguido no Concurso. Curiosamente a cerimônia de premiação ocorrerá no dia do aniversário de minha mãe Dora (Dorilda Silva de Oliveira) e meu aniversário também. Nasci no aniversário da minha mãe. Eles estão mais felizes torcendo pelo nosso Inter e por nós nos Campos de Luz celestiais. Obrigado.

 

Concurso de 2015–S.C. Internacional–2o. Lugar em Contos – “Corisco, Prego e Rosa..” leiam abaixo no site.

Diploma da Premiação 2015 IMG_1055IMG_1056

Formigas! Outras revelações. – Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 13 Junho 2017.

 

2017 – 06 – 13 JUNHO – FORMIGAS! OUTRAS REVELAÇÕES – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

Formigas! Outras revelações.

Observe a formiga preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio! Ela não tem chefe, nem supervisor, nem governante, e ainda assim armazena suas provisões no verão e na época da colheita ajunta o seu alimento. Até quando você vai ficar deitado, preguiçoso? Quando se levantará do seu sono?” – Provérbios 6.6-9

O

s ensinamentos que nos mostram a formiga como modelo estão em todos os ares respirados pela humanidade. Vejam acima essa parte do Antigo Testamento e reflitam nos ensinamentos, como do rei Salomão. Há árabes que ao nascerem um filho, colocam em sua mão uma formiga e fazem os votos de trabalho e prosperidade. Nosso grande Olavo Bilac traz bela poesia sobre a formiga, assim como muitos escritores. O cinema nos encanta e emociona com essas criaturas exemplares em dedicação e organização à coletividade. Seriam as formigas worhaholics?

Crônicas & Agudas

O grande ator Castro Gonzaga, dublador de Popeye, interpretou Zico Rosado ou o Formiguento na novela cult Saramandaia em 1976. Obra de Dias Gomes e dirigida por Walter Avancini, o Formiguento era um rígido dono de engenho de açúcar e quando em ebulição de ideias e sentimentos sentia formigar seu nariz. Escarafunchava as ventas com um lenço vermelho e ali brotavam formigas. Muitas formigas. Essa obra de realismo fantástico tentou driblar as tesouras da censura mostrando uma série magnifica de personagens na cidade de Bole-Bole ou Saramandaia. Recorde-se!

Cr & Ag

O genial Simões Lopes Neto galopeou emoções e tropeou ensinamentos com o imortal Negrinho do Pastoreio. Um Negrinho, esse seu único nome, sem eira nem beira, sofria nas mãos do rico e poderoso estancieiro e que desgostoso das lidas do guri, depois de várias surras, amarrou-o sobre um enorme formigueiro. Depois de três dias retornou ao lugar da sua suprema maldade e encontrou o Negrinho de pé e altaneiro sobre o formigueiro, com a pele lisa e sem qualquer lesão e acompanhada da sua mãe celestial, a Nossa Senhora, e nunca mais deixou de pastorear nos campos celestiais e trazer fé e esperança aos humildes e sacrificados pelo poder.

Cr & Ag

Tribos brasileiras de antanho traziam seus jovens para uma prova de fogo de sua maturidade. Onde o menino se tornaria um homem num ritual em que formigas-de-fogo seriam atiçadas em seu corpo e ele deveria resistir à dor e ao sofrimento das picadas. Os rituais com formigas estão em todos os horizontes como em ameríndios do norte e africanos em que as vítimas eram palanqueadas entre quatro estacas e amarradas com cintas de couro cru para serem devorados pelas formigas. Inimigos e pessoas “descartáveis” de tribos das selvas da América Central e do Sul eram lançadas no caminho das formigas-em-correição, em que um exército avassalador dificilmente seria contido.

Cr & Ag

 Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”! Frase atribuída ao advogado e escritor Monteiro Lobato, mas na verdade teria sido cunhada pelo naturalista e botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Há carta de Monteiro Lobato à uma prima agradecendo uma farofa de içá – abdomens de saúvas em época de vôo, fritas com farinha de mandioca e outros temperos, uma especiaria antiga no Vale do Paraíba ou na região de Taubaté, em São Paulo, onde nasceu. “Já escondidos atrás do foro privilegiado, os políticos querem se esconder de novo atrás de listas fechadas, anular provas de delação da Odebrecht, enfim, voltar aos velhos tempos. Não vão acabar com o Brasil. As saúvas não acabaram”. O jornalista Fernando Gabeira atualizou o sentimento para os tempos infernais de corrupção e insanidade moral e infeciosa que se alastrou vorazmente e que somente o antibiótico da Lava Jato será insuficiente para salvar o paciente Brasil.

 

http://www.edsonolimpio.com.br

Formigas! Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 06 Junho 2017.

 

2017 – 06 – 06 junho – Formigas! – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

Formigas!

A

s pessoas possuem encantamentos e admirações por animais. Alguns elegem os cães, outros os gatos e cavalos, talvez aranhas e cobras, ainda quem se entregue de corpo e alma a um molusco. Sempre tive um respeito às formigas. Talvez isso tenha principiado com a velha, mas sempre atual, fábula de Esopo com a Formiga e a Cigarra, o bicho e não a fêmea nicotinada do cigarro. Lembra? Outro dia, depois de sair do jantar festivo do Consulado do Internacional de Viamão no Vento Negro, vinha digerindo as emoções e o belo encontro com amigos colorados e assemelhados. Precisei alimentar o meu veículo, pois sem comida não anda e nem trabalha. Aportei no antigo Texacão e enchi o tanque com atendimento excelente, mesmo com adiantado horário, o que tive de mal atendimento no outro posto na mesma rodovia, compensou com sobras. O frentista ainda se ofereceu para calibrar os pneus. Estava vendo o amigo fazer seu ofício com zelo e dedicação quando me apercebi de um carreiro de formigas trabalhando com uma energia que o Zago e seu time não tiveram. Quase tropeçando na meia noite ali estavam as formigas em feroz labuta sem hora extra, décimo terceiro, adicional noturno, bolsas (e sapatos), auxílio moradia e outros tantos regalitos lastreados nos intermináveis direitos adquiridos que nós pagamos como contribuintes compulsórios.

Crônicas & Agudas

Algumas formigas carregavam verdadeiras toras se comparadas ao seu tamanho. Abaixei-me. Não portavam nenhuma identificação como placas, bandeiras da CUT ou do MST ou estavam mascaradas quebrando os faróis do carro e furando os pneus. Algumas paravam para estimular as outras e tomar um fôlego, mesmo sem mortadela e cachaça. E a fila nascia e sumia na escuridão, mas na área iluminada do calibrador de pneus era de espantar. Positivamente. Falei ao frentista: – Vai chover! E muito. Como assim ele respondeu. Madrugada ou amanhã vai derramar um caldo no lombo das criaturas. Muita água. Falou: – Como o senhor sabe? Enquanto atarraxava a tampa do ‘ventil’. As formigas estão nos contando isso. Seu espanto aumentou e veio olhar a freeway lotada de formigas. Coloquei uma pilha a mais: – E vai chover tanto que pode dar flagelado. Aí o homem não se segurou mais: – Como o senhor sabe disso vendo formigas? Saquei meus conhecimentos de formigueiros e atirei: – Trabalhando assim essa hora da noite é para armazenar, pois na chuva terão que ficar curtindo somente o formigueiro e veja essa que carregam as ‘toras’, é aviso de enchente para que sirva de barco. A ‘formigologia’ é uma ciência complexa gerada em tempos em que as criaturas olhavam e buscavam respostas na natureza. E choveu e inundou o Rio Grande Farroupilha. O frentista vai usar para seus netos essa simplicidade e irá espantá-los.

Cr & Ag

Certa ocasião um paciente sentou-se a minha frente no consultório e largou num tiro de laço: – Doutor estou diabético! Homem de lidas campeiras e municiado por longa experiência de combate nas desventuras e aventuras da vida, franziu o cenho com a fronteira branca-escura mostrando o uso do chapéu mais escavada. – Fizeste algum exame de sangue tche? Balançou a cabeça. Deu uma suspirada e se veio: – Ando com uma sede de dar dó, bebo água até nos valos. Achava meio estranho, mas tenho comido muito churrasco e charque atolados de sal. Aí dei um desconto. Mas começou a juntar formiga onde eu mijo. Seu doutor, se mijo num palanque ou num pau de alambrado, tem enxame de formiga no chão e subindo no pau. Daí só pode ser açúcar demais no sangue e sai nas urinas. Acertou mais que a Lava Jato. Um tempo depois de medicado e dos demais cuidados, retornou e contou: – To mijando que nem um bagual e não junta mais formigas.

Essa lúdica coluna pode lhe ter essa serventia. Observe as formigas! Talvez você aprenda com elas e com a troca de informações com outras pessoas coisas que muito bancos escolares estão ausentes, principalmente porque as ideologias ainda não submeteram as formigas, apesar de todas as relações das cigarras e seus sindicatos e movimentos sociais ou peristálticos.

http://www.edsonolimpio.com.br

A Idade da Gata! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 30 maio 2017.

 

2017 – 05 – 30 MAIO – A IDADE DA GATA – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

A Idade da Gata!

P

or mais que o título sugira que vamos enveredar pelos caminhos da idade da mulher amada ou pelas belas que flutuam no universo ao nosso redor, vamos tangenciar ou passar de raspão, até “tirando um fininho”. Quanta coisa se faz pela idade? Ou não se faz pela idade? – Estou muito velho para isso! Isso é para jovem e a minha juventude já ficou perdida no tempo. Você ouve ou dia algo assim? Como a nossa mente racional, exceto quando vota ou é discípula de criminoso contumaz, trabalha nos dando a realidade das nossas possibilidades com o máximo de desenvoltura e o mínimo de risco, selecionamos aquilo que nos é mais agradável e compatível. A TV mostra uma mulher na casa dos 90 anos saltando de asa delta do topo de uma rocha na montanha. Sim, trazia às costas um experiente professor do esporte. Mesmo assim é de arrepiar os cabelos restantes. A descida triunfal e filmagens para as redes sociais. Tudo até é legal quando acaba bem. E muitas vezes acaba bem porque aquele espírito está revestido, blindado contra a idealização da desgraça possível.

Crônicas & Agudas

Tenho que fazer isso enquanto sou jovem! Diziam um amigo empoleirado numa motocicleta superesportiva e também adepto dos esportes de alto risco, como sair de moto à noite em Porto Alegre. Alguns até numa festa funk depois de um jogo na Arena tricolor numa área de sobrevivência escassa sem o aval da chefia local. Outro faz mergulho de profundidade em cavernas ou noturnos no oceano. Tudo aquilo que nos desafia, que ativa nossos mecanismos de combate e de sobrevivência com riscos, gera substâncias em nosso corpo que tendem a exigir novas repetições. E talvez com maiores riscos. E a idade está ali para marcar território e estabelecer limites. – Quando eu era jovem Completava um vovô ao contemplar o andar sensual da moçoila saída de algum conto com dezenas de tons de cinza entre outras cores do espectro. O jovem com a safadeza mascarada atiçou: – Tem um comprimido azulzinho que dá uma coragem e uma disposição danada de boa!

Cr & Ag

A cirurgia plástica que mais tem crescido percentualmente no Brasil e nos Estados Unidos traz o remodelamento, aperfeiçoamento da genitália feminina. A motivação é diversa, mas a busca de resultados compartilhados é evidente. Nesse boom nenhuma idade é adversária, ao contrário, é motivacional. E as veteranas de muitos fandangos da vida, corações pealados e estradas de chão batido ou lençóis de fios de linho egípcio encantam-se e a vida desafia constantemente. Um amigo sentado na sua veterania de conhecer o rengo sentado e saber do cego dormindo lascou: – O compromisso só aumenta!

Cr & Ag

Os amigos fieis que me acompanham nessa balada de letras se fundindo em palavras e frases lembram da Neve. A Neve é nossa gata. Peluda e algo obesa. Carinhosa quando carente. Tão na dela quanto todos os felinos. Ela faz a rotina de vida dela, desde que nada lhe falte – areia para suas necessidades fisiológicas, ração premium para paladares apurados e água fresca. Ela curte seus locais de dormir e de brincar. Com cerca de 15 anos de idade seria uma humana muito idosa. Ela não tem a consciência disso, persiste tentando pegar os passarinhos na sacada, assim como sentar-se ao sol ou andar suavemente pelo parapeito do apartamento. Parece ter programas na TV ao seu gosto, tanto para olhar quanto para dormir. Outros ela renega e busca lugares distantes. Tem especial amizade pela sua veterinária. E aproveita um dia após o outro sem qualquer tipo de preocupação com a prisão do Lula ou a queda do Temer. Observamos algumas mudanças física e mentais da sua idade. Nós observamos! Ela curte a sua vida em qualquer cenário que vamos com a mesma satisfação. Acompanhar os animais nos ensinam aulas úteis para nossa humanidade desenfreada e consumista, para nossa vertigem do tempo escasso ou do pavor do envelhecimento. No entanto, para todos e todas as criaturas o tempo é o mesmo.

http://www.edsonolimpio.com.br

Álbum de Fotografias! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 23 maio 2017.

 

2017 – 05 – 23 MAIO – ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

Álbum de Fotografias!

O

s dedos galopeiam quase desenfreados nas telas sensíveis dos modernos celulares, as imagens se debulham como espigas de milho seco na tormenta, os olhos relampejam buscando a imagem ou a foto desejada. Imagens se acumulam e rodam num redemoinho multicromático. A plateia ao lado tenta vislumbrar algo que lhe sensibilize. Misturam-se imagens da pessoa, da família, selfies nos mais bizarros ângulos, imagens recebidas de sexo ou de política, de festa e de morte, imagens arquivadas na virtualidade e muitas na mais efêmera impessoalidade. E aqueles dedos ansiosos, já não encontrando a imagem perseguida, estampam qualquer uma outra que lhe sirva ou que a plateia demonstre alguma curiosidade. Acumulamos com orgulho e sublimação as imagens de nossa rápida existência num álbum no Facebook ou no Instagram, ou algo do gênero. Nossos milhares de amigos virtuais irão compartilhar numa valsa em que todos bailam.

Crônicas & Agudas

Torrentes de fotos dos filhos e dos netos atropelam as imagens de amor eterno (enquanto durar!) de ‘love is all’. Constatações antes de críticas. Bem antes das críticas vem as imagens guardadas em quadros na parede da sala com as pessoas ilustres, por serem amadas e respeitadas da família. Sei que assim não mais vigora. Ainda sobrevivem as fotos da vida das pessoas e da família em arranjos decorativos sobre um aparador ou outro móvel. E as fotografias ‘enlatadas’ ou numa caixa decorada, talvez de algum presente de aniversário que albergassem perfumosos sabonetes? Onde estarão? Nalgum álbum virtual deletado por um vírus de bruços no computador? Que delícia abrir uma caixa e esparramar as fotos que nos encantam e nos fazem voltar no tempo e naquela situação sobre um tapete ou na colcha da cama! Tocar e cheirar. Ocluir as pálpebras e sentir-se retornar em tempo e espaço e curtir momentos que a nossa pessoalidade jamais deveria esquecer.

Cr & Ag

Crises? Dificuldades conjugais? Sentam-se juntos e trocam as imagens que fizeram quando ainda o amor falava e tocava mais. Um bálsamo derrama-se no coração mais renitente, no humor mais empedernido, na língua que ‘não pode deixar passar’, na personalidade vingativa ou justiceira. E… Se o amor não transcender, se a brasa rubra não se reavivar, se alguma flor não se abrir e os lábios não sentirem qualquer vontade de se tocarem, ficarão as imagens de algum tempo em que foram felizes. Guardem-se as alegrias com as provas indeléveis no papel. E na felicidade? Abra-se a caixa de fotografias e renovam-se juras, reviva-se a felicidade contida na imagem que transcende e realimenta a alma. Acumule-se energias de amor e de confiança para os dias tormentosos que todos terão.

Cr & Ag

Sentar-se com um filho ou com os netos e visitarem novamente um universo que te fará contar as histórias que lhes encantarão e avivarão algo tão perdido nas famílias, o amor real e tocável. Palpável. Sensível aos olhos sem a correria de dedos nos mouses ou nas telas. Que as mãos sejam mais sensíveis que as telas. Que as peles se toquem e os lábios expressem seus sentimentos e o beijo e o abraço sejam reais. Real e muito mais sensível ao toque numa imagem com todas as dimensões do amor que se faz vivo. Experimente! Será terapêutico. Para todos! Aquelas imagens que foram visitadas com as crianças sempre se reavivarão e no curso da existência elas brotarão em coragem, força, persistência, humildade e sabedoria. Somos seres que necessitamos imensamente que nos demonstrem que somos amados. A fotografia pode renovar o cenário. E faz! E quando a tua criança lembrar do balanço que andava, do brinquedo esquecido, das brincadeiras sob os braços da figueira, do cãozinho correndo na praia e outro dia pedir para olhar novamente contigo e que tu contes e relembres cada fotografia, nesse dia o universo será mais luminoso e o horizonte será belo e jamais perdido.

http://www.edsonolimpio.com.br

Exemplos! Bons e Maus. – Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. 16 Maio 2017.

 

2017 – 05 – 16 MAIO – Exemplos – Bons e Maus – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

Exemplos! Bons e Maus.

N

o escotismo, como em outras formações em que a disciplina e o modelo são fundamentais, há uma expressão: – “Siga o líder”! Na educação familiar – dizem que era assim somente nos séculos passados quando educar um filho era obrigação de família e não principalmente de escola ou de governantes – se aplicava o lema de que “um exemplo vale mais do que mil palavras”. O tropel incansável da evolução tecnológica não se acompanhou da evolução ética, moral, dos bons costumes e atitudes, dos exemplos e dos modelos de líderes ou de familiares a serem perseguidos, seguidos, imitados ou assimilados nas personalidades. O Decálogo divino recebido por Moisés e gravados pelo fogo eterno nas páginas de granito parecem para tantos como mensagens supérfluas da internet. Ou algum ‘fake’?

Crônicas & Agudas

Triste observação. Somos um povo diferente? Não por essa tomada de três pinos que somente nós temos. Nem pela pátria amada da jabuticaba. Nem pelo mais perfeito e encantador sistema público de saúde, o SUS, que se ainda não funcionou a contento são por meros detalhes na ponta da corda – os pacientes. Seguramente, sem os pacientes, seria perfeito. Seria pela mais evoluída constituição que algum povo civilizado poderia conceber? A magnífica “constituição cidadã” de 1988 e seus intermináveis direitos e ausência de deveres. E a terra do direito adquirido? Quando o “direito adquirido” de um é o esbulho, a espoliação do outro? Com a infinidade de direitos adquiridos e somados aos mais “adquiridos” e inexpugnáveis carecemos de deveres adquiridos que talvez somente tenham validade se inseridos em alguma cláusula pétrea – e mais pétrea que as pedras de Moisés.

Cr & Ag

Até aqui já saltaram do barco dessa leitura alguns direitos pescados. Mexer no meu jamais… Como a estória da pimenta nos olhos alheios. A pátria idolatrada dos penduricalhos “necessários e inalienáveis” da função da criatura. Lembra de algo assim e de categorias profissionais cobertas de berloques e miçangas? Nos autoproclamamos como uma terra espiritualizada, religiosa em que o sincretismo é da nossa índole, mas nossos ladrões são venerados pelo seu povo, como aquele povo venerava Nero ou Calígula na mortandade das arenas. Somos um povo que crê que trabalho e emprego são coisas diferentes e que muitas vezes são somente duas paralelas, jamais se cruzarão. E que cumprir horário significa trabalhar arduamente e que o trabalho somente “dignifica” se aditivado pela propina, caixa dois, jeitinho brasileiro…

Cr & Ag

Sinta-se desafiado a pensar, raciocinar, esfrangalhar a selva humana a sua volta, ou por cima e por baixo. Berço esplêndido tem algo a ver com zona de conforto? Referenciais! Modelos. Protótipos? Moldes, perfeitos moldes recriam novas máquinas. Evoluem os moldes, melhores e mais evoluídas máquinas. Diz-se que somos a mais perfeita criatura, a mais evoluída máquina na natureza. Quantos líderes são bezerros de ouro com as entranhas putrefatas e escandalosamente safados ou criminosos. Filhos perderam o referencial de pais e avós onde tantos desconhecem seus antecessores e as famílias são transitórias como juras de amor e amizade nas redes sociais.

Cr & Ag

Os exemplos do pai, da mãe, dos avós, dos religiosos, dos professores, dos médicos, de qualquer cidadão com “c”, do estranho no ônibus ou no banco da igreja… Onde estão? Há vergonha e constrangimento quando a reflexão racional e íntegra nos abate? Ou o perfume maligno da moeda na cueca, na meia, no banco estrangeiro, na mística da apologia política que fracassou em todos os horizontes, na subserviência vantajosa e pusilânime, no poder sempre por mais poder com mais e mais súditos, da destruição familiar e dos melhores princípios serão vitoriosos?

http://www.edsonolimpio.com.br

Entradas Mais Antigas Anteriores